Testemunho de João Simão Pires

1. Que testemunho pode dar sobre os últimos 10 anos do sector da Água? O que de mais importante aconteceu na sua perspetiva?

 

Em comparação com a conclusão de importantes investimentos, com o nascimento e consolidação de novas entidades gestoras, com o desenvolvimento da regulação dos serviços, com relevantes desenvolvimentos legislativos,… não pretendo destacar um aspecto AINDA mais importante.

Todavia, voltando há 10 anos atrás, afigura-se-me consensual que o grau de conhecimento, visibilidade e acesso a informação sobre os serviços urbanos de águas em Portugal é hoje claramente maior: dados de caracterização das entidades gestoras, indicadores de qualidade do serviço, tarifários, condições contratuais,… Naturalmente, ainda há um caminho a percorrer, designadamente no tocante à informação económico-financeira, mas é inquestionável que as opções políticas do governo e dos municípios, de gestão por parte dos operadores e de intervenção por parte da comunidade técnico-científica e sociedade civil, se podem hoje suportar num quadro factual de base assinalavelmente mais robusto do que há uma década atrás.

 

2. O que gostaria de ver concretizado na próxima década no sector?


Pedidos ao “Pai Natal” – Daqui a 10 anos:

  • Que uma adequada recuperação de custos dos serviços urbanos de águas por via tarifária, seja uma realidade, não apenas para a maioria da população Portuguesa (como já é hoje) como também para a vasta maioria das entidades gestoras (o que ainda não é o caso);
  • Que os debates “Central-Local” e “Público-Privado” se progressivamente esvaziem, permitindo o desenvolvimento de soluções estruturalmente robustas e acima de tudo “Profissionais”, independentemente da sua titularidade e modelo de gestão: que tais questões, passíveis de distintas respostas atendendo à heterogeneidade do nosso território e tecido institucional, sejam em ultima instância “invisíveis” para os utilizadores finais e “indiferentes” para uma boa qualidade do serviço que se pretende universal a toda a nossa população;
  • Que o sector da água comece a surgir no radar dos instrumentos que aplicam as nossas poupanças como uma proposta com retornos que, embora modestos, se afigurem estáveis e seguros.

João Simão Pires é Professor da Católica Lisbon School of Business and Economics