Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): A saga continua: agregações II

25.07.2016

É um facto e é surpreendente, até para os que não são da geração dos jogos em computadores ou telemóvel, a rapidez com que estão a aparecer soluções de negócios colados à não menos surpreendente disseminação do jogo do Pokemon Go. Tornou-se viral em poucas semanas e para tudo parece haver soluções para não perder a onda e ganhar dinheiro.

 

Mas a que propósito vem esta conversa?! Nada menos nada mais do que para realçar a lentidão com que os processos de mudança (para melhor) dos serviços da água acontecem.

 

Já sabemos que onde há poucos clientes o negócio não é sustentável e onde há muitos clientes é muito lucrativo. Juntar os sistemas ricos com os sistemas pobres para chegar a um equilíbrio parece óbvio e fácil, até para os leigos na matéria.

 

A agregação geograficamente transversal ao país em meia dúzia de grandes sistemas, numa face intercalar, com uma tarifa única, resultante da classificação dos serviços da água como fundamentais e de interesse público nacional permitiria encontrar o ponto de equilíbrio e assim dar sentido de país-nação a todos os que nasceram em zonas desfavorecidas em termos de recursos naturais e de orografia. Isto até podia ser explicitado em termos de política social divulgando com transparência os montantes recebidos por cada zona receptora e os montantes cedidos por cada zona dadora. Seria uma medida de fortalecimento da coesão territorial e social resultante de um desígnio que também os serviços da água podiam ter.

 

Mas onde está o entrave às insipidas iniciativas nesses sentido? Já o disse e repito, o problema é que há demasiados políticos sem visão nacional na política. Claro que tal mudança teria que ser um acto de imensa coragem política de quem estivesse ao leme da mesma. Porém, há matérias em que a democracia não permite obter a melhor solução, sendo por vezes um obstáculo.

 

Esta situação impele-me a citar uma passagem de uma tese de doutoramento Francisco Laranja de Castro Bicho dos primórdios do século passado (1926) em que as preocupações sanitárias eram apenas de natureza médica sem ênfase nos veículos da transmissão como a água, sendo o objecto da mesma era a Organização dos Serviços Sanitários em Portugal:


“É na organização sanitária que, através dos tempos, muitos homens têm posto o melhor da sua imaginação e esforço, resolvendo problemas que, embora nos possam parecer hoje muito simples, têm contudo direito a serem rememorados aqui, porque traduzem uma aspiração grandiosa da época em que apareceram.”

 

O panorama passado dos serviços de salubridade leva-nos a questionar a nossa condição de povo com medo de mudar e a este propósito não resisto a transcrever uma demonstração do pragmatismo daqueles tempos numa passagem do regimento de fevereiro de 1521de D. Manoel, ordem que incidia sobre todos os médicos nacionais e estrangeiros: «O Físico-Mor não pode dar licença a médicos idiotas para curarem, onde houver médicos letrados, graduados pela Universidade de Coimbra. Essa licença só poderá ser concedida aos médicos idiotas, quando na sua terra não haja médicos letrados»

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , Adérito Mendes , água , tendências , agregações
Vai gostar de ver
VOLTAR