Adérito Mendes (Água-Tendências): Estado promove CO2 em vez de novas origens de água

22.03.2019

A pretexto do dia mundial da água, pensei que seria mais apropriado escrever um artigo de opinião de natureza mais abrangente sobre política da água ou da sua pouca expressão social no que se refere às alterações climáticas, abordando a necessidade do renascimento dos serviços da água na esfera do Estado para a promoção dedicada e orientada da gestão da água, muito para além da atendida política urbana da água. Mas, como os momentos comemorativos têm como efeito reduzir a intensidade da mensagem decidi, por isso, deixar o assunto para a próxima edição.

 

Tenho o privilégio de viver em alternância na zona urbana da capital e na zona rural do nordeste transmontano, ou seja, entre a região da concentração das decisões políticas nacionais e onde os reflexos territoriais dessas politicas menos se fazem sentir, ou talvez não (digo talvez porque a não tomada de decisões também são decisões) e uma das regiões onde essas decisões (neste caso a falta delas) têm mais reflexos, sobretudo nos espaços sujeitos ao despovoamento. Estas decisões de que falo são sobre os efeitos das alterações climáticas.

 

Não sendo um especialista “encartado” constato que os efeitos das alterações climáticas se sentem mais no meio rural do que nos meios urbanos, onde se localizam os decisores políticos, governo, deputados, etc.., pois que desde que passei das palavras aos actos e investi na florestação com espécies de crescimento lento há mais de uma década e meia que venho a constatar que, tanto as novas árvores como as árvores centenárias, vêm morrendo sem que a reposição ou substituição por outras mas resistentes à falta de chuva compense essas perdas.

 

Verifico com as minhas capacidades de observador atento da natureza que as sucessivas vagas de secas tem vindo a acumular perdas de resistência das plantas e o seu definhamento sistemático acrescido com a falta de resistência às pragas e doenças, que assumem novas versões e variedades.

Para quem não necessita de viver dos rendimentos do meio rural poderia ser indiferente a estes factos mas o definhar dos castanheiros e outras árvores específicas da região devido à sucessiva vaga de períodos de seca nos últimos 20 anos comprovam que a instalação definitiva das alterações climáticas neste território, sem que nenhuma política de combate ou de adaptação aos seus efeitos seja audível, deixa inquieto qualquer cidadão com um mínimo de sensibilidade ambiental, mesmo não sendo natural daqui.

 

Já ouvi várias vezes em privado políticos tecnocratas defender que a solução para estas gentes do meio rural pouco produtivo é deixá-los deslocarem-se para os centros urbanos de média dimensão ou superior onde já existem equipamentos suficientes para absorver os acréscimos de população como se tem vindo a verificar nos últimos anos. Mas isso é continuar a política de despovoamento e abandono das zonas rurais e depois gastar volumosos orçamentos no combate aos incêndios florestais, agora mais conhecidos de incêndios rurais.

 

Os efeitos acumulados das alterações climáticas e do abandono das zonas rurais é a conjugação para o desastre perfeito, transformando zonas ambientalmente equilibradas em manifestações de desertificação física do território.

 

Se isto já não bastasse, assistimos à aplicação coerciva de uma política de prevenção contra incêndios rurais que vão no sentido oposto do que deveria ser, ou seja, instam-se os proprietários a cortar os matos e arvoredos de médio e baixo porte e proceder à sua queima. É por este facto que, percorrendo estes territórios rurais, se assiste ao espetáculo deprimente de ter os horizontes repletos de colunas de fumos, que se intensificam no mês de março, e que são um forte contributo à produção de CO2  que, acrescido ao produzido pelas lareiras das aldeias, vilas e cidades do interior incentiva os factores que estão na base das alterações climáticas.

 

Em vez desta politica de desespero para fazer crer que se está a prevenir os incêndios florestais promovida à sombra das mortes que fatalmente ocorreram nos anos recentes por erros de socorro e não por outra razão, já que nas circunstâncias de ventos muito fortes e temperaturas muito altas nem a prevenção evita estes desastres, o que seria racional era promover a limpeza dos terrenos mas proibindo a queima dos resíduos. Por ser tão óbvio até custa a crer que não se incentive a incorporação da matéria orgânica no solo, estilhaçando os resíduos das limpezas e espalhando-os pelos terrenos e obrigando em seguida a lavra dos mesmos. Haveria para isso que criar incentivos financeiros à compra de pequenas máquinas de destroçamento e afins que seriam uma gota de água comparados com os custos no socorro a bancos falidos cujo salvamento é muito questionável!

Note-se que na generalidade das zonas rurais, fora dos vales aluvionares, os solos são carentes de matéria orgânica e que o efeito da adubação é mais eficiente se se mantiver uma relação 16/1 entre o carbono e o azoto. Também não é corrente que o agricultor tradicional português saiba que esta relação é fundamental na produtividade agrícola e que as lavras têm um efeito benéfico no sequestro do carbono pelo solo, além de aumentar a infiltração da água das chuvas cuja retenção pode ser aumentada com o enriquecimento dos solos com matéria orgânica.

 

Se as alterações climáticas já parecem inquestionáveis (só os Trump é que querem fazer crer que não acreditam, mas é apenas por razões de estratégia de concorrência no crescimento económico) e que as regiões a sul do rio Tejo e do Nordeste Transmontano vão sofrer, mais cedo do que se quer fazer crer, os seus efeitos, que se traduzem já em vagas de anos mais secos que nas décadas transatas, onde é necessário criar muitos reservatórios de água, tipo charca ou pequenas albufeiras, espalhados pelo território e que é urgente começar as regas de socorro às plantas que tradicionalmente eram resistentes aos períodos secos (sobreiros, azinheiras, castanheiros, tec) mas que estão a deixar de ser por causa da sucessão de períodos secos mais longos.

 

É por isso que nos parece que a ausência de uma política de Estado com estas características é uma lacuna assinalável no Plano Nacional de Investimentos de médio prazo onde as preocupações centrais parecem continuar a ser as estradas, que são bem notórias nas propostas das CIM (Comunidades Intermunicipais).

 

Vamos continuar a andar sempre atrás do prejuízo ou vamos alterar as prioridades, olhando para longe com visão a pensar nos netos e seus descendentes?

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

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