Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Activos): Água e saneamento: negócios de risco?

03.05.2016

Não sei se serão negócios de risco, mas são, decididamente, negócios de gestão do risco.

 

Talvez derivado de um imperativo legal, uma das primeiras abordagens formalizadas de gestão de risco em empresas de água (e não só), tenha sido o risco associado à segurança em obra e dos trabalhadores em geral. No final do século passado, a Gestão de Ativos emergiu como uma disciplina estruturada, tendo como um dos seus pilares a gestão do risco ao longo do ciclo de vida dos ativos.

 

Em 2004, e na sequência da carta de Bona, a elaboração de Planos de Segurança da Água surge como uma metodologia que visa gerir o risco de qualidade da água “desde a origem até à torneira do consumidor”.

 

Como em qualquer outra empresa, há ainda que garantir a sustentabilidade económica nas empresas de água, pelo que o risco económico-financeiro é mais uma das dimensões a ter em conta. Adicionemos o risco associado às alterações climáticas, à segurança das infraestruturas, à continuidade do negócio em caso de catástrofe… e temos um panorama assaz interessante para quem gosta de desafios.

 

Desengane-se quem pense que cada um dos riscos atrás enumerados pode ser gerido de per si, por uma área específica da empresa. Não obstante a sua especificidade, na realidade estes riscos estão interligados, na medida em que se afetarem uma componente do sistema de água ou saneamento, esta poderá vir a afetar outra(s).

 

Esta será uma das principais razões para que as novas versões das normas ISO tenham introduzido a gestão do risco como um requisito (remetendo para a norma ISO 31000:2009), independentemente de se tratar de um sistema de gestão da Qualidade, do Ambiente e, por maioria de razão, de Gestão de Ativos.

 

Como tal, a gestão do risco, à semelhança da gestão de ativos, necessita de uma perspetiva transversal – um maestro – que, pela sua abrangência, pode (ou não) coincidir com a do maestro da gestão de ativos. Caberá a este (i) garantir que todos os riscos importantes para o negócio estão a ser controlados, de preferência desde a sua origem; (ii) direcionar as ações e os meios da empresa para os riscos mais graves primeiro; (iii) evitar sobreposições e redundâncias nessas acções; e (iv) acautelar a necessária uniformização de critérios para avaliação dos riscos, para que estes possam ser comparados.

 

Que fazer, então, para gerir esta complexidade? Foi para encontrar respostas a esta questão que, há cerca de ano e meio, participei num workshop promovido pela Water Research Foundation, juntamente com gestores de risco e outros especialistas de empresas de água do Canadá, EUA, Reino Unido, África do Sul e Austrália.


Gestores de risco? Sim, essa função existe mesmo – embora não haja, ainda, essa prática nas empresas portuguesas –, e facilita em muito o caminho para a resposta à questão colocada. Note-se que o gestor de risco não substitui os diversos intervenientes que gerem o risco nos mais variados níveis da empresa, apenas garante a articulação entre estes bem como a preparação de informação comparativa que possa ser circular (nos dois sentidos) entre os níveis mais operacionais e a gestão de topo.

 

Outra função muito importante do gestor de risco é a de combater a complacência, que, paradoxalmente, constitui um dos maiores riscos na gestão do risco: pensemos em alguém a conduzir um bom carro numa estrada sem muito trânsito, com retas compridas, etc.… ao fim de algum tempo “baixará as guardas” e permitir-se-á distrair-se com a paisagem. No entanto, se de repente aparecer algum carro em contramão, instintivamente o condutor voltará a concentrar-se na condução. Pois bem, combater a complacência consiste em garantir que os riscos continuam a ser geridos mesmo quando tudo parece estar a correr dentro da normalidade – caso contrário, essa “normalidade” será de curta duração.

 

Todos na empresa sairão a ganhar com uma gestão de risco articulada, aplicada numa perspetiva preventiva e apoiada em metodologias pensadas, testadas e transparentes. Afinal, estando estas metodologias disponíveis, e tendo em conta a importância da missão das empresas de água e saneamento, não será demasiado arriscado não as aproveitar?

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Colunista , Ana Luís , Ambiente Online , gestão de activos , água , saneamento
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