Alterações Climáticas - 1,5 ou 2 graus: Certezas do que acontece com esta pequena diferença

06.11.2018

Picos de calor mais acentuados e aumento da temperatura média na maioria das regiões terrestres e oceânicas são certezas que resultam de não conseguir parar o aumento das emissões de gases com efeito de estufa. Estas são duas certezas absolutas relatadas no já histórico Relatório Especial do IPCC - Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) divulgado em Outubro que alertou para a necessidade de agir de imediato com determinação, exigindo restrições severas para prevenir que a Terra não aqueça para além de 1,5 graus contados a partir do tempo pré-industrial. O valor médio deverá estar agora nos 1,2 graus e deverá chegar aos 1,5 graus. No entanto, se se aproximar de uma subida desse valor médio para 2 graus, ou próximo disso, os efeitos serão bastante piores.

 

O relatório resultou de muitos estudos parcelares e preocupou-se em distinguir as consequências entre os dois patamares de emissões: 1,5 graus ou 2 graus acima da temperatura média na Terra antes da revolução industrial. Nesta linha de análise chegou a conclusões de grande confiança ou muito elevada probabilidade e refere igualmente outras consequências estudadas às quais atribui confiança média.

 

Verificando apenas as de grande confiança, as consequências certas de nada fazer de drástico ou muito relevante, os cenários tornam inevitáveis as mudanças nos hábitos humanos e dão alertas para a urgência de adaptações.

 

O relatório confirma que alterações climáticas significativas são já verificáveis como o aumento de temperaturas extremas em algumas regiões do globo. Também a frequência, intensidade e quantidade de chuva nas mesmas ou noutras regiões são fenómenos que ganham maior regularidade.

 

Quanto a temperaturas extremas o relatório aponta para um rácio maior que o GMST – Greenwich Mean Sidereal Time, ou seja o tempo médio sideral ou, ainda, a diferença entre a energia projetada sobre a Terra pelo Sol e a devolvida em sentido contrário. Apenas com o próximo aquecimento de 1,5 graus, prevê-se que em latitudes médias as temperaturas extremas em dias quentes subam 3 graus. Já se o aquecimento global for de 2 graus essas temperaturas podem ser mais elevadas 4 graus em relação aos valores verificados em época pré-industrial. Em latitudes elevadas as noites frias terão temperaturas superiores em 4,5 e 6 graus se se verificar um aquecimento de 1,5 e 2 graus respetivamente. Como certo está igualmente o número de dias quentes com temperaturas mais elevadas, com maior incidência nas regiões tropicais.

 

Maior Risco de secas e reduzida pluviosidade também foram referidas em estudos, mas as suas conclusões são de confiança média.

 

A subida do nível das águas do mar é inevitável e prolonga-se para além de 2100 com qualquer valor de aumento de temperatura média da Terra, já a sua magnitude dependerá das futuras emissões realizadas até lá. Certa também é a maior grande exposição de ilhas, zonas costeiras baixas e delta de rios a invasão de água salgada, cheias e danos em infra estruturas.

 

A diferença entre 1,5 e 2 graus de aquecimento é também decisiva para extensão de danos em ecossistemas. O aumento de fogos florestais é certo bem como a proliferação de espécies invasivas que, apesar de tudo, será significativamente menor a 1,5 que a 2 graus. A latitude elevada já é visível a invasão de arbustos na Tundra e é certo o aumento destes igualmente nas florestas boreais.

 

O aumento da temperatura nos oceanos terá impactos elevados. A possibilidade de degelo total, durante o verão, no mar Ártico, reduz-se de uma vez por século, caso a temperatura suba apenas até 1,5 graus, para uma vez por década, caso atinja os 2 graus. Esta diferença torna-se mais evidente noutras latitudes com uma redução de 70 a 90 por cento nos recifes de coral apenas no primeiro nível analisado e superior a 99 por cento, ou quase extinção, com aquecimento médio global de 2 graus. Neste patamar os danos são considerados irreversíveis.

 

O nível de acidez dos oceanos, devido a maiores concentrações de CO2 em conjunto com o aquecimento global aumentará muito ao nível de 1,5 graus e muito mais em 2 graus, afetando o crescimento, desenvolvimento, calcificação, sobrevivência e, logo, abundância de diversas espécies, de algas a peixes.

 

São obviamente esperados riscos acrescidos para as populações no que respeita a saúde, estilos de vida, segurança alimentar, disponibilidade de água potável, segurança e crescimento económico ao nível de 1,5, mais graves quando e se o aquecimento se aproximar dos 2 graus.

 

Segundo o especialista Philippe Mathieu, professor da Universidade de Liége, as conclusões principais são de “acelerar a transição energética eliminando os combustíveis fósseis e utilizando todas as tecnologias de zero emissões”, mas adiciona “que não basta anular CO2 é necessário retirar CO2 da atmosfera para compensar o efeito dos gases de estufa”, conclui.

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