António Chaleira (Água/Energia - Gestão de Ativos): Visão de Ativo

05.01.2018

Tenho participado em vários fóruns onde a gestão de ativos é o tema principal e, não raras vezes, não fica claro para mim quais as dimensões da gestão de ativos que são abordadas. Se técnica, se financeiras ou se ambas. Na maioria das vezes o âmbito dos temas em discussão está sobretudo na dimensão técnica, mas quando se entra no capítulo da tomada de decisão, as conclusões ficam normalmente abertas. Há muito “se”…

 

Na verdade, ainda que sendo importante, uma gestão focada na dimensão técnica não é, contudo, suficiente para suportar a tomada de decisões.

 

O ativo, numa definição empresarial muito simples, é o “conjunto de bens e direitos necessários para assegurar a manutenção sustentada das atividades e consequentemente do negócio”. Bens e direitos que são decisivos para a geração de benefícios económicos, de valor para a empresa.

 

Gerar benefícios económicos deve ser um dos principais requisitos de um ativo.

 

Lembremo-nos aqui da excelente coleção de pinturas de Joan Miró, adquiridas pelo então BPN, e das peripécias a que foi sujeita, para tentar vislumbrar que benefícios económicos esperavam obter os então decisores do BPN quando decidiram adquirir a coleção. Certamente que o propósito não seria tão só decorar a sede do banco. Para isso umas réplicas também resultariam.

 

Da minha parte vislumbro alguns benefícios e nestes não estão os possíveis ganhos em posterior alienação (negociar obras de arte não seria, certamente, o negócio do BPN), sendo certo que a geração de tais benefícios decorreria do facto do BPN ter a posse efetiva de tais bens, demonstrada através de documentos próprios, contabilisticamente válidos, registados corretamente nas contas e refletidos corretamente no Balanço.  

 

O que sabemos é que os 85 quadros da coleção que hoje está exposta na Fundação Serralves, para gáudio de muitos dos seus apreciadores, terão um valor de mercado muito elevado (80 milhões de euros segundo noticias de 2008) e não se perspetiva a sua alienação (pelo menos a curto prazo). Interessante seria conhecer a evolução do peso destes bens no Balanço do BPN, desde a sua aquisição até 2006 (em 2007 surgem os primeiros sinais que antecedem a queda e  o o fecho do exercício deverá ter sido atribulado) para percebermos como a dinâmica do mercado de obras de arte (e como os experts) contribuíram para reforçar a robustez do Balanço através da valorização do Ativo e da possível redução do peso do Passivo.

 

Os especialistas dirão que não percebo nada, nem de Bancos, nem de gestão de obras de arte, e é verdade. O que disse sobre a importância da coleção Miró para o BPN, não passam de suposições, próprias daqueles que pouco ou nada sabem sobre determinados assuntos, mas que não perdem as oportunidades para ir dando alguns palpites.

 

Teria um discurso similar se me pedissem para abordar a gestão de direitos ou de outros ativos intangíveis. Não é bem a minha praia.

 

Como engenheiro, interesso-me mais pelos os ativos tangíveis, que têm materialidade, contornos físicos, que são palpáveis, como os edifícios, os sistemas de bombagem, as viaturas e muitos outros. Tais ativos, permanecendo na posse de uma organização durante alguns anos, são essenciais à manutenção sustentada dos processos produtivos e à geração de benefícios económicos.

 

Também para estes ativos a questão da posse é fator determinante para o seu reconhecimento. Como exemplo, poderemos referir o caso de uma empresa que possui uma frota de viaturas que considera necessárias para assegurar a sua atividade produtiva, onde todas as viaturas são adquiridas pela empresa, segundo o plano anual investimento de reforço e renovação da frota, e os seus valores registados na contabilidade e refletidos no Balanço como bens da empresa. Alternativamente a empresa poderia optar por um qualquer contrato de aluguer de frota e neste cenário, as viaturas da frota não poderão ser consideradas ativos da empresa contratante.

 

O tempo que os ativos permanecem na posse de uma organização também é determinante para a conceção do modelo de gestão.

 

Tomando como exemplo uma empresa de compra e venda de automóveis. Naturalmente que esta empresa tem o maior interesse em reduzir o tempo que as viaturas estão na sua posse, pelo que o seu modelo de gestão está particularmente orientado para a gestão de ativos variáveis, maximizando a sua conversão em meios monetários e reduzindo o tempo que permanecem na sua posse.

 

Contrariamente, os ativos tangíveis que permanecem na posse de uma organização durante alguns anos, correntemente designados por ativos fixos, o modelo de gestão tem por base a sua depreciação decorrente do tempo e do uso, traduzido numa história feita de operações, de intervenções de manutenção, de custos, de perdas de produção e de benefícios gerados.

 

Com o que foi dito, procurámos dar uma volta, ainda que muito curta, sobre duas características importantes dos ativos, i) a sua materialidade (tangíveis ou intangíveis) e ii) o tempo que permanecem na posse de uma organização (fixos ou variáveis), que normalmente determinam a adoção de modelos de gestão distintos.

O meu interesse está sobretudo na gestão dos ativos tangíveis fixos, mais propriamente dos ativos físicos que, como todos os outros, devem observar os seguintes requisitos:

 

  • Ser adquiridos para gerar benefícios económicos
  • Estar corretamente registado o seu valor na contabilidade
  • Ter registada a informação necessária para assegurar o conhecimento e o controlo dos ativos, nas suas diversas fases do ciclo de vida

 

A observação cumulativa destes três requisitos será a base para o reconhecimento de um ativo, que não será observável num qualquer componente, e deve estar suficiente clara em qualquer organização, sobretudo nas pessoas que tomam decisões no âmbito da gestão de ativos, deste a identificação de necessidades até ao abate.

 

Sem uma visão comum de ativo, nenhuma organização terá sucesso na implementação de um sistema de gestão de ativos.

 

Sem o conhecimento do modelo de negócio e do papel e contributo dos ativos, nenhum gestor de ativos estará suficiente habilitado a tomar as melhores decisões para maximizar a criação de valor para a organização.

 

António Álvaro de Oliveira Chaleira é engenheiro eletrotécnico formado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É adjunto do Conselho de Administração da EDP Distribuição – Energia, S.A. e responsável pela implementação de um Sistema de Gestão de Ativos na EDP Distribuição – Energia, S.A.

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