António Sá da Costa (Energia-Renováveis): A Transição que falta

03.07.2017

Que temos de descarbonizar a sociedade a fim de minimizar o impacto das alterações climáticas não devem restar dúvidas ao leitor. Os estudos relacionados com este tema apontam para que Portugal seja o país europeu que mais vai sentir o efeito dessas alterações climáticas. O que já estamos a sentir com o que se passa com o nosso clima, verões mais prolongados e mais quentes e secos, invernos mais curtos com a precipitação mais concentrada, já não deixa dúvidas aos mais céticos.

 

Já é tarde para evitar totalmente estes efeitos, como também é verdade que não somos só nós portugueses que devemos atuar, pois embora as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) sejam produzidas localmente, os seus efeitos são globais. Isto é uma verdade indesmentível.

 

Mas também é verdade que se cada um não fizer o seu papel não pode exigir aos outros que o façam. Por isso é tempo de reequacionar o nosso comportamento e tirar partido daquilo que a natureza nos oferece em Portugal, Sol, Água e Vento, e o que a tecnologia nos vais também disponibilizando.

 

Já estamos bastante avançados no que respeita ao setor elétrico, mas ainda há muito a fazer. As recentes evoluções nos equipamentos eólicos e solares fotovoltaico, com os correspondentes ganhos em eficiência e abaixamento de custo, são uma excelente ajuda. Com eles poder-se-ão equipar novas centrais que não só não emitem os GEE, como evitam a importação de combustíveis fósseis, assim como, e não menos importante, apresentam custos mais baixos do que o das centrais térmicas, incluindo os ditos custos de back-up.

 

Mas não nos podemos ficar por aqui. No setor do aquecimento e arrefecimento devemos a nível das nossas casas, mas também quando possível a nível dos serviços e indústria, usar o Sol para aquecer as águas sanitárias e caldeiras a pellets para aquecer o ambiente e servir de back-up quando o Sol, nos dias mais enevoados, não é suficiente para aquecer a água. O uso de pellets fabricados com resíduos florestais, ou subprodutos de atividades industriais, além de desenvolverem a indústria nacional também ajudam a diminuir o risco de incêndio das nossas florestas.

 

Também não deve ser ignorado que existe em Portugal fabrico dos painéis solares, dos sistemas a ele associados, e também de caldeiras a pellets, e que pode ser potenciado se estas utilizações forem generalizadas entre os portugueses. Há muitos anos que uso em minha casa estes dois sistemas sustentáveis e estou muito satisfeito não só por ajudar o ambiente, mas também por ser uma forma mais económica de ter a água e a casa aquecidas.

 

Finalmente temos o setor dos transportes, e principalmente o transporte privado, que não só é o que menor uso das energias renováveis faz como também é aquele em que está a ser mais difícil a mudança de mentalidade.

 

Se pensarmos que um veículo elétrico (VE) gasta menos de um quarto da energia do que um veículo tradicional, tendo presente que em mais de 90% das distâncias percorridas pelos condutores particulares são distâncias dentro da autonomia atual das baterias não há razão para que não se comece a fazer a mudança. A questão dos postos de carregamento não serve de desculpa, pois eles estão a surgir aos poucos. Com vontade e muita determinação conseguiremos motivar a melhoria da rede de abastecimento. Os pioneiros terão sempre um caminho menos confortável, mas sabemos que o Governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para que esta transição se faça o mais rapidamente possível.

 

Sinto-me à vontade para defender esta transição pois também já a fiz há dois anos e não me arrependo.

Finalmente também devemos considerar que a eletricidade em Portugal será crescentemente renovável, potenciando os efeitos benéficos de diminuição dos GEE no setor dos transportes.

 

Claro que isto não exclui a velha questão do ordenamento do território e o aumento de oferta e de qualidade do transporte público (de preferência elétrico), para diminuir o uso do transporte privado.

Façamos a nossa parte na transição energética das nossas vidas, na certeza que estamos a contribuir para um impulso inicial de efeito multiplicador que tem largas vantagens, para Nós, para o País e para o Planeta. Nós, portugueses, estamos numa posição privilegiada no que respeita a fontes renováveis, conscientes que no presente e no futuro:


Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

TAGS: renováveis
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