Comentário Rui Berkemeier: A nova diretiva dos resíduos e a reconversão dos TMB

28.05.2018

Como é sabido, a nova diretiva sobre resíduos aponta para a necessidade de se aumentar drasticamente a reciclagem dos resíduos urbanos e traz a obrigatoriedade de se implementarem sistemas de recolha seletiva de resíduos orgânicos.

 

Face a estas novas regras, Portugal pode rentabilizar de forma inteligente os investimentos feitos nas unidades de Tratamento Mecânico e Biológico (TMB), com a adaptação das mesmas para o tratamento de resíduos orgânicos recolhidos seletivamente.

 

Esta reconversão dos TMB é uma operação relativamente fácil e barata, evidenciando uma das principais vantagens desta tecnologia que é a sua grande flexibilidade, ao contrário de outras soluções como a incineração que são muito mais rígidas no seu modo de funcionamento.

 

Com a gradual instalação de circuitos de recolha seletiva de resíduos orgânicos e o consequente aumento deste fluxo, os TMB podem começar por dedicar um túnel de compostagem à receção destes resíduos e, quando as quantidades o justificarem, passar a utilizar uma ou mais linhas de digestão anaeróbia para o tratamento exclusivo destes resíduos.

 

Assim, os sistemas que apostaram nos TMB para o tratamento dos resíduos urbanos indiferenciados, em detrimento da incineração ou da deposição exclusiva em aterro, já estão hoje preparados para arrancar a sério com a necessária recolha seletiva de resíduos orgânicos, ajudando o país a melhorar o seu desempenho ambiental e a cumprir as obrigações comunitárias.

 

Pelo contrário, quem apostou quase tudo na incineração ou no aterro, vai ser forçado a fazer grandes investimentos, em unidades de valorização orgânica, uma vez que as não têm (sistemas que apostaram no aterro), ou as que têm (sistemas que apostaram na incineração) possuem uma capacidade manifestamente insuficiente para tratar as quantidades de resíduos orgânicos que vão ter de recolher seletivamente e reciclar.

 

De referir que, embora não se sabendo quais a taxas de comparticipação de fundos comunitários que os novos quadro de apoio preveem, tudo indica que serão inferiores às de quadros anteriores, pelo que os custos para os sistemas que não investiram no tratamento dos resíduos orgânicos deverão agora ser mais elevados do que os que anteciparam estes investimentos.

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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