Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): A “SORTE E O AZAR” do Ministro do Ambiente

26.12.2017

Deixei acabar o Outono e que o Inverno tivesse início para escrever este artigo de opinião. Porquê? Para ter a certeza que o Outono foi muito seco e que ou haverá chuvas intensas no inverno ou então a reposição dos recursos hídricos não vai acontecer e a seca vai continuar no próximo ano civil. Para reforçar esta convicção fui observar a variação de volumes nas albufeiras e constacto que estão com volumes inferiores aos do ano passado e de há dois anos no mesmo momento. Ou seja, a situação é preocupante.

 

O título deste artigo poderia sugerir que se trataria de uma crítica à actuação do senhor Ministro, elogiosa ou negativa. Mas não. Nem sequer visa tratar um assunto de forma personalizada. Refiro Ministro porque é quem personaliza a actuação do Ministério. Até porque quem exerce essas funções na actualidade é uma pessoa por quem tenho uma elevada estima e, se por acaso o título chamar a sua atenção à leitura do artigo nesta ocasião, ficam aqui os meus votos de Boas Festas e um 2018 ainda melhor.

 

O que pretendo registar tem a ver com o facto de, apesar de continuarmos em seca severa e extrema, os órgãos de informação continuarem, e bem, a tratar abundantemente o tema dos fogos rurais e das desgraças que assolaram tantas regiões do país, o tema da seca ter sido quase esquecido. A seca como a que estamos a viver, podendo ser equiparada a um fogo em lume brando mas continuado, deveria ter um tratamento informativo mais visível.

 

O facto de continuarmos sem chuvas fortes e continuadas é uma sorte porque evita que as áreas ardidas sejam erodidas pelas enxurradas e permite que a vegetação brote e comece lentamente a criar uma cobertura junto às camadas mais frágeis do solo. Mas é um azar porque nas áreas não ardidas e também nestas a reposição das reservas de recursos hídricos começa a ficar tardia e as perspectivas agrícolas e pecuárias para 2018 não parecem boas. Com a imprensa com os holofotes virados para os responsáveis políticos pelas áreas da protecção civil, apoiando medidas imediatas “doa-a-quem-doer”, as forças opositoras não têm espaço para impedir o desbloqueamento de decisões sobre políticas adiadas. É pois, aproveitando estas conjunturas e oportunidades que se conseguem aprovar políticas que noutras circunstâncias seriam provavelmente adiadas.

 

Apesar da seca severa-extrema em pleno inverno, a continuar em lume brando, pouca notoriedade se está a dar ao assunto. Mas as consequências podem ser tão graves como as dos fogos rurais.

 

Transpondo este quadro para a esfera das preocupações ambientais, ou seja, as do Ministro do Ambiente, o facto de não estar debaixo dos holofotes da imprensa, nem estar a ser pressionado por forças políticas circunstanciais, leva-nos a afirmar ser uma sorte para o ministro porque pode trabalhar com mais serenidade. Por outro lado, se não tivesse havido as catástrofes dos fogos rurais neste momento o foco das atenções e pressões estaria sobre o ministro do ambiente por causa da desgraça que se adivinha com a continuação da seca severa-extrema. Todavia, estas condições são propícias para se fazerem aprovar políticas mais intensas e respectivos orçamentos sobre as alterações climáticas. É à perda desta oportunidade que identificamos como o azar do ministro do ambiente.

 

É que começa uma política nacional com visibilidade sobre as alterações climáticas e o combate às suas consequências ambientais e económicas, não só na forma de fogos florestais, perda de paisagem/turismo, etc. mas de forma mais sub-reptícia no despovoamento do interior do país, onde a falta de água por longos períodos é responsável pelo abandono paulatino destes territórios, que já são referidos como deixados ao abandono pelo poder político. Ou será que têm que ser o sector agrícola a dar voz à necessidade de origens de água estratégicas de fins múltiplos de garantia plurianual, como o ouvimos publicamente apenas ao representante máximo da CAP?

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

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