Collares Pereira: COP21, política energética precisa-se: caminhando para 100% de eletricidade renovável?

12.07.2016

As Energias Renováveis (RE), sobretudo a eólica e a hídrica, já têm hoje uma contribuição em média superior a 50% na produção da electricidade que utilizamos. Temos também uma contribuição grande dos combustíveis fósseis, sobretudo do carvão (~30%) e, quando falamos da necessidade de descarbonizar a nossa economia, pelo impacte que a eles está associado, a escolha mais eficaz seria a terminar com a contribuição do carvão.

 

Olhando de mais perto, verifica-se que nem sequer é necessário haver uma decisão sobre o encerramento das duas centrais a carvão que temos: elas atingem o seu tempo de vida útil em meia dúzia de anos, isto é “sairão de cena” pelo seu pé.

 

Meia dúzia de anos é o tempo que temos para pensar o que vamos fazer em alternativa. Outras centrais a carvão? Julgo que isso é impossível, por ser tão fortemente contrario aos compromissos assumidos no contexto COP21. Mais gás natural? Mais Energias Renováveis?

 

Mas estes prazos e estas decisões obrigam a que haja uma política energética discutida e definida desde já.  

 

Há quem pense que o mercado é que deve encarregar-se de nos ir fornecendo soluções, mas, se queremos caminhar de forma decisiva no sentido COP 21, necessitamos de muito mais do que isso.

 

Hoje o custo de produção centralizada de electricidade, no caso dos combustíveis fósseis, é determinado apenas pelos custos destes, e é tão baixo que não há mercado para desenvolver soluções renováveis ou mesmo convencionais novas. Poder-se-á argumentar que, a prazo, subirão de custo porque são finitos, mas não se sabe nem quanto, nem quando.

 

Contudo, quando se considerarem as alternativas a investir em novas centrais a carvão, estar-se à gerar mercado, por ser agora possível comparar diversas opções em base similar (LCOE, custos evitados, despachabilidade, etc.)…

 

Para esta comparação será fundamental considerar aspectos como a internalização dos custos dos impactes ambientais. E outros, como por exemplo, os ligados à segurança do abastecimento ou ao interesse em reduzir importações, ou à valorização da atividade económica interna gerada por uma aposta substancial nas renováveis… Valor e custo não são a mesma coisa. Actualmente discute-se electricidade como um bem económico heterogéneo.

 

Se estivéssemos a considerar estes aspectos, hoje e já, poderíamos estar a gerar mercado, mesmo nas circunstâncias actuais! Não fazer isto é uma forma de política energética (por ausência)… mas será a que queremos?

 

Por outro lado, mesmo quando se olha para a produção descentralizada com fotovoltaico, que hoje já se consegue fazer a valores mais baixos que os que pagamos para ter electricidade lá em casa, isto é, em torno dos quais já existe um mercado que se está a explorar, não temos uma legislação favorável a que este se desenvolva para valores significativos. Outra vez política energética!

 

Mas, no estado actual das tecnologias RE e pensando 2030, é perfeitamente legítimo pensar que poderíamos já ter, nessa altura, 80%, e mesmo perto de 100% de contribuição das renováveis…

 

Poderíamos também pensar que fazendo isso com um avanço de 10 ou 20 anos sobre o resto da União Europeia, poderíamos ser um estudo de caso para os nossos parceiros europeus e beneficiar de alguma ajuda financeira ou outra, directa, para atingirmos esse resultado.

 

Do ponto de vista tecnológico isto pode atingir-se com o crescimento do solar (ver Quadro 1), até se alcançar sensivelmente 30% do total, reforçando ainda a eólica e a hídrica para valores idênticos, ficando o resto para a biomassa, a cogeração e o gás natural, este ultimo numa quantidade residual, como boa medida para um equilíbrio sem grandes tensões, enquanto o resto da Europa não caminha na mesma direção e ajuda a balançar o nosso conjunto com trocas de energia de e para outros países.


Quadro 1 (Para ver quadro abrir ficheiro em baixo com o artigo completo de Manuel Collares Pereira- Uma evolução possível para a situação de ~100% electricidade renovável em 2030; os valores de potência instalada referidos para o Solar, centralizado e descentralizado, são apenas uma combinação possível a título de exemplo da ordem de grandeza para valores idênticos de consumo; nota: o solar termoelétrico, STE, é considerado com 15 h de armazenamento à potência nominal.

 

Chamando o solar à liça desta forma, é necessário pensar em soluções de produção centralizada e despachável, com armazenamento térmico de energia; o solar termoeléctrico, hoje ainda a necessitar de um esforço de desenvolvimento superior ao do fotovoltaico, mas para o qual podemos e devemos contribuir.

 

Queremos fazer isto tudo aumentando o consumo de electricidade através da mobilidade eléctrica e consequente redução dos usos de combustíveis no sector dos transportes?

 

Queremos aumentar a contribuição do solar e da biomassa para todo o uso de energia que não é eléctrico?

 

As opções políticas neste contexto podem e devem também antecipar um quadro legislativo que permita não só fazer face ao eventual aumento do consumo interno de energia, mas ao futuro mercado interno da energia num contexto Europeu e dos países vizinhos,  que necessitará e muito de formas de energia que ainda não atingiram a maturidade como a STE, e promover desde já medidas de estimulo à implementação, demonstração e contínuo desenvolvimento de R&D neste campo, com vista à sua adopção e disseminação, aproveitando os recursos e know-how de excelência que Portugal já desenvolveu ao longo dos anos.

 

Para encontrar as melhores condições de por tudo isto em marcha é necessário, é urgente, uma política energética! Para a electricidade, meia dúzia de anos é o tempo que, em qualquer caso, temos disponível…

 

Manuel Collares Pereira é investigador, professor na Universidade de Évora e presidente do IPES- Instituto Português de Energia Solar. 

TAGS: Opinião , Manuel Collares Pereira , energia , solar , renováveis
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