Colunista Adérito Mendes (Água - Tendências): Uma dimensão integradora socio-territorial da água

13.01.2016

Na área do abastecimento urbano de água e saneamento estamos a terminar a fase de infraestruturação básica que, por ter consumido várias décadas, já deu lugar à fase de renovação que é preciso atacar para reduzir as perdas de água na rede de abastecimento e as infiltrações na rede de drenagem de águas residuais urbanas.

 

Penso que ainda não está na ordem do dia o tratamento igual dos cidadãos das pequenas aldeias e aglomerados onde a qualidade da água das redes públicas não tem garantia e o tratamento das águas residuais parece tardar.

 

Se queremos que o sector do turismo seja um motor do crescimento económico, como tem vindo a ser, é essencial apostar na diversificação da oferta, e isso passa por manter pessoas nos territórios do interior as quais exigem o mesmo nível de tratamento que os do litoral, no que à água diz respeito, para aí se manterem.

 

Como a monitorização vai ter que ser levada a sério, por exigência demonstrativa das instâncias europeias, e com a redução significativa da rejeição de águas residuais urbanas não tratada nesta fase final do período de infraestruturação, vai ser perceptível a não correspondente melhoria da qualidade das massas de água devido à persistência de afluências de águas residuais de outras actividades humanas, com maior significado para as agro-pecuárias, onde pouco se tem feito. É pois aí que os maiores desafios se colocam nos tempos mais próximos.

 

Na área da agricultura de regadio tem-se assistido a um abrandamento dos consumos unitários das culturas muito graças à aplicação de modernas tecnologias de rega na melhoria da gestão dos sistemas, sobretudo por efeito da aplicação de taxas de utilização dos recursos hídricos.

 

Sendo a União Europeia excedentária em produtos agrícolas, a aposta na produção de bens alimentares em Portugal passa por aproveitar as suas especificidades climáticas e na oferta de produtos diferenciados, muitos ligados à pastorícia, raças autóctones, ao azeite e aos frutos secos, etc. Ora, estas são actividades do interior do país e em zonas onde os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir com prolongados e frequentes períodos de seca.

 

Quer isto dizer que os pastos e as plantações vão exigir regas de socorro que só podem ser proporcionadas por uma rede de pequenas albufeiras que, concomitantemente, poderão servir para apoiar o combate aos fogos florestais, protegendo a fileira dos derivados da floresta, madeiras, papel, cortiça, etc.

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , Adérito Mendes , água , tendências , território , agricultura
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