Colunista Adérito Mendes (Tendências): Água mole em pedra dura... Finalmente no caminho certo!?

25.10.2016

Se hoje quisermos saber quantos quilómetros de condutas, de que diâmetros, de que classe de pressão, etc, o país precisará substituir nos próximos 5, 10 15 ou 20 anos, quem saberá responder? Quem diz condutas diz válvulas, ventosas, bombas, reservatórios, etc, toda uma parafernália de equipamentos e materiais que o serviço de águas envolve. A isto chama-se cadastros ou inventários.

 

É óbvio que só gere bem quem conhece bem aquilo que tem que gerir e desenvolver. Mas mais relevante é podermos saber que meios vamos necessitar para manter e melhorar os serviços de interesse geral, não só na perspectiva estatal e municipal mas sobretudo na perspectiva empresarial. A previsibilidade é dos activo com maior valor para a actividade empresarial, não apenas para dar segurança à continuidade dos negócios e emprego mas também para potencial novos investimentos e com eles mais empregabilidade.

 

Se calhar sem se aperceberem os principais fazedores de opinião e os decisores estão em harmonia?!  Vendo bem quem lê os artigos sobre os diversos assuntos da água com atenção encontrará umas palavras e expressões recorrentes: não se sabe; ninguém sabe; ainda não se sabe; estamos a recolher informação; há falta de dados; os dados não são concordantes….

 

Esta matéria vem-me à mente porque durante décadas, decorrente das funções de planeamento de âmbito nacional, verifiquei a falta dos elementos que devem caracterizar um bom diagnóstico, sem o qual as soluções são quase sempre discutíveis ou duvidosas. Sempre pugnei e é minha convicção de que uma informação de base assente em cadastros/inventários periodicamente actualizados conduz a soluções melhores e mais económicas, requisito base do exercício da engenharia e incontornável em países de baixos recursos económicos.

 

E porque digo que finalmente estamos no caminho certo? Porque finalmente as notícias são animadoras. Por um lado, anuncia-se que por estes dias vai ser aprovado o SNIC-Sistema Nacional de Informação sobre Cadastro Rustico e Urbano (que tanta falta faz na politica de protecção da natureza contra os fogos florestais, etc), por outro lado, já estão em campo os incentivos financeiros no âmbito do POSEUR para a elaboração de cadastro das infraestruturas existentes dos sistemas em baixa de Abastecimento de Água (AA) e de Saneamento de Águas Residuais (SAR), para que o indicador de conhecimento infraestrutural e gestão patrimonial produzido pela ERSAR comece a ter valores aceitáveis.

 

Esperemos que o caminho seja o mais recto possível, pois que nesta matéria já outras tentativas de mérito foram realizadas com as quais se consumiu muito dinheiro e talento, mas que foram retrocedidas em troca de outros investimentos menos estruturantes, perdendo-se muito dinheiro e criando muito desalento nos técnicos que se empenharam, o que é contrario ao que o país precisa.

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , Adérito Mendes , água , tendências
Vai gostar de ver
VOLTAR