Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): E se eu, cidadão não especialista, quisesse saber...?

02.05.2017

É do conhecimento comum que para os investidores e ou “resgatadores” internacionais as informações/indicadores sobre as “utilities” de um país pesam substancialmente nas decisões sobre os riscos que pretendem correr. Os indicadores sobre a água e respectivos serviços não são excepção, daí a importância da recolha sistemática e sistémica da recolha e disponibilização de dados.

 

Este introito vem a propósito do facto de ter lido em vários artigos de especialistas e em diversos momentos recentes que os indicadores disponíveis sobre os níveis de atendimento em abastecimento de água às populações e saneamento de águas residuais a nível nacional (Continente+Madeira+Açores) mais recentes se referem ao ano de 2009!?. De imediato a pergunta que me afluiu à mente foi: porquê 2009? Não há dados mais recentes?

 

Mas não me fiquei pelas interrogações e fui indagar colocando-me na pele do cidadão comum não especialista que queria saber quais os valores para estes indicadores. Nesta condição e por se tratar de estatísticas, usando o meio mais prático, a internet e um dos seus mais potentes browsers, nada encontrei. Em seguida fui explorar as páginas do INE (Indicadores/Ambiente/ Água/Portugal) e lá encontrei os dados mais recentes, 2009, indicando como fonte o INSAAR (Inventário Nacional de Sistemas de Abastecimento de Água e Águas Residuais) administrado pelo Instituto da Água (INAG, I.P.), que já não existe. Fui tentar a sorte na página da PORDATA (Base de Dados de Portugal/Ambiente, Energia e Território/Água e Saneamento/) e lá estão os valores nacionais mais recentes, 2009, com o rodapé Fontes/Entidades: INE (até 2005) | INAG/MA (a partirde2006), PORDATA Última actualização: 2017-03-08”.

 

Já começava a perceber as razões onde os especialistas referidos no início foram buscar os valores. Mas não me dei por vencido e fui à página da autoridade nacional da água, a Agência Portuguesa do Ambiente, e no separador de Sistemas de informação lá encontrei o referido INSAAR, que para meu espanto refere que os indicadores são relativos a 2008!! Entretanto lembrei-me que desde 2012 é a ERSAR a entidade responsável pela avaliação do desempenho dos sistemas de abastecimento de água e saneamento de águas residuais urbanas e que publicam o RASARP (Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal). E lá estava (Publicações/Ficheiros associados) RASARP 2016-Volume 1 - Caraterização do setor de águas e resíduos, que nas suas páginas 114 e 130 nos fornecem os valores dos indicadores procurados: AA01 96% e AR01 83%, mas com a ressalva de que o seu âmbito geográfico restringe-se ao território de Portugal continental. Ou seja, continuamos sem valores nacionais. Uma última esperança me ocorreu. E se houvesse dados agregados na página da APDA (Associação Portuguesa de Distribuidores e Drenagem de Água) ou na APESB (Associação Portuguesa de Engenharia Sanitária e Ambiental)? Tentativa sem êxito.

 

Ainda a respeito de indicadores sobre a água e relativamente à qualidade das águas das praias, os nossos feitos, comparando-os com os nossos pares europeus, são de enaltecer atendendo ao posicionamento no ranking. Contudo, os 55% de locais balneares classificados como praias com bandeira azul noticiados e identificados em mapas não deveriam ser contrastados com os 45% dos que o não são e esclarecidos os utilizadores sobre que riscos correm ou não nestas praias?

 

Tanto neste caso como no anterior fica-se com a sensação de que para ter informação fidedigna é necessário alguma perícia, tempo e paciência, coisa de que o cidadão não especialista não é adepto. Por isso perguntamos para quando um local na internet com Estatísticas Rápidas da Água?

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , Adérito Mendes , água , tendências
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