Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): Nexus Água-Resíduos-Energia

29.05.2017

É um facto, revelado publicamente nas diversificadas apresentações de resultados e de perspectivas futuras das empresas e das instituições, que a preocupação dos gestores dos sistemas de águas e resíduos com os consumos de energia tem vindo a crescer na proporção dos preços desta.

 

Nos tempos em que se procuram cobrir com serviços de águas e recolha de resíduos de qualidade as remanescentes percentagens de povoações que ainda não dispõem de serviços desta natureza, começam a repetir-se as recomendações para a necessidade de fundos para a renovação das redes e equipamentos numa perspectiva de substituição com modernização, com a inovação focada na redução do consumo da energia, não apenas nas redes gerais mas também nas redes domiciliárias, das empresas e das instituições e serviços.

 

Em paralelo com essas preocupações, aparece o cumprimento da Directiva europeia "Energy Performance in Buildings Directive" (EPBD), ou seja a directiva europeia sobre balanço energético zero em edifícios (directiva 2010/31/UE do parlamento europeu e do conselho) relativa ao desempenho energético dos edifícios, também conhecida por NZEB-Nearly Zero Energy Buildings. É já a partir de 2020 que todos os edifícios novos deverão ser altamente eficientes e ter um balanço energético próximo do zero. A revisão da Directiva para os edifícios (EPBD) foca os objectivos num edifício "com um desempenho energético muito elevado em que as necessidades de energia quase nulas ou muito pequenas deverão ser cobertas por renováveis". Não sendo novidade em muitos países da Europa, já há bastante tempo que se projectam e constroem estes edifícios com baixas necessidades energéticas com contributo da energia produzida pelas renováveis localmente ou nas proximidades.

 

Neste conceito os edifícios são encarados não apenas como consumidores de recursos energéticos mas também como geradores e ou captadores desses recursos que sobre eles incidem, neste caso luz, calor, vento.

 

Como fonte endógena de energia, e no quadro da economia circular, basta ter presente que nos edifícios residenciais, comerciais, serviços e outros, são gerados matérias orgânicas residuais, que são misturadas com água ou com outros resíduos para serem transportadas para fora dos mesmos para serem tratadas, quando o poderiam ser no espaço afecto aos edifícios caso fossem separados na origem e neles ser gerado biogás para contribuir para o tal balanço energético próximo de zero. As soluções já existem e se o país quiser apostar na inovação tem aí uma área de investimento com elevado potencial que urge aproveitar, ou vamos deixar-nos ficar para trás e depois ir a reboque das exigências comunitárias como em tantas outros domínios? É que retirar resíduos orgânicos, fecais ou gerados nas cozinhas e zonas verdes, a montante e com eles produzir energia é garantir o cumprimento de outras exigências comunitárias em matéria de resíduos sólidos e é aliviar as redes públicas de drenagem de águas residuais, prolongar a vida útil das instalações de tratamento e reduzir os volumes de transporte energeticamente consumidores.

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Adérito Mendes , opinião , água , energia , resíduos
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