Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): Praia na Praça do Comércio...

27.06.2017

Antes de mais há que ter presente que as praias também se constroem como as auto-estradas, barragens, etc, e podem funcionar tão bem ou melhor que as naturais.

 

Praia no Terreiro do Paço para valorizar o turismo de Lisboa que está em alta? Não, apesar da economia do turismo agrader alguma diversificação e os lisboetas também já que podiam evitar as filas para a Costa.

 

Praia na capital por ter um mar (mar da Palha)? Não, pois que de mar apenas tem o nome.

 

Praia em Lisboa para poder rivalizar com Barcelona ou o Porto? Não, embora Barcelona seja uma referência de mudança para quem conheceu a repugnante frente marítima de há menos de meia dúzia de décadas sendo hoje um forte actractivo para quem a visita.

 

Muitas outras meritórias razões poderiam ser elencadas para justificar uma praia no cais das colunas mas o que releva nesta abordagem são as opções estratégicas de longo alcance que garantam a recuperação da qualidade da água do rio Tejo de forma irreversível. Talvez até conduzindo ao inevitável encerramento de Almaraz!

 

Mas como? Lembremo-nos que a bacia hidrográfica do Rio Tejo é a que está sujeita a maior pressão, quer em relação à quantidade de água extraída, quer em relação à qualidade de água, quer em relação à alteração do regime fluvial de caudais. Nela se concentram as comunidades urbanas mais numerosas da península, consubstanciadas nas capitais dos dois países ibéricos, e actividades industriais e agrícolas.

 

Portanto, para imaginarmos uma praia de belíssima areia branca e água cristalina bordejando a monumentalidade da frente ribeirinha pombalina, onde todos os turistas e habitantes se comprazeriam com a luminosidade destas paragens, teríamos que garantir uma qualidade da água de excelência, o que só seria possível com uma política integrada da nascente à foz para a consecução deste desígnio. Logo, um controlo da qualidade e da quantidade da água intenso e coordenado entre Portugal e Espanha o que implicaria uma eliminação dos riscos potenciais inerentes às actividades económicas localizadas na bacia hidrográfica.

 

E esta? Com uma única medida o efeito de arrastamento implicava tratar cerca de um quarto do território da península.

 

Mais vale poucas e boas!!

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , água , tendências , Adérito Mendes
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