Colunista Adérito Mendes (Água): Qualidade e privilégios ambientais: o querer, o poder e o dever

17.11.2016

Para quem se desloca e permanece com frequência no interior mais distante do litoral e nos centros mais desenvolvidos nas zonas costeiras dispõe de uma ampla visão dos contrastes e semelhanças com muitos cambiantes. Para quem tem como missão da sua vida cuidar do ambiente expor sobre o assunto requer um exercício de escolha das palavras que num espaço de escrita limitado permitam acrescentar ou aduzir mais-valia ao desenvolvimento e ao progresso.

 

Ocorrem-me as palavras solo, água e ar e como derivada destas a biodiversidade, pois são precisamente estas palavras as que se utilizam para identificar os principais componentes básicos naturais do ambiente. As que encontramos na documentação ambiental, tais como resíduos sólidos, ruído, radiações, espaços verdes, etc., formam o léxico dos temas ambientais de origem na acção humana.

 

A qualidade dos elementos ambientais básicos é a chave para o desenvolvimento sustentável, quer dizer, desenvolvimento das gerações actuais sem impedir que as gerações futuras também tenham essa possibilidade. Manter essa qualidade requer uma atenção continuada sobre as relações quotidianas das nossas opções com esses elementos que são os valores de vida mais importantes mas a que não damos a importância por os considerarmos como adquiridos.

 

Para nos apercebermos deste facto pensemos como seria o espaço onde vivemos, ou melhor onde gostaríamos de viver, onde de repente deixasse\de chover e onde por qualquer razão o ar passasse a conter substâncias que o tornassem irrespirável. Nesse momento daríamos todo o valor ao que havia antes, água em abundância suficiente para todas as nossas actividades, ar que tornava o acto de respirar imperceptível, paisagens e seres vivos faunísticos e florísticos cuja presença e observação nos dá a sensação de uma condição superior do ser humano.

 

Enquanto uns têm os elementos ambientais em abundância outros já se conformaram ao seu usufruto esporádico a que chamam eco-turismo, turismo rural, turismo de paisagem, etc. É claro que o que uns têm demais outros têm de menos, ou seja, onde melhor qualidade ambiental existe menor quantidade de oportunidade de trabalho existem e de capacidade de aquisição de bens e serviços que os rendimentos do trabalho permitem. Mas para os que querem ter mais oportunidades profissionais têm que viver em espaços industrializados e urbanos cuja qualidade ambiental é naturalmente muito inferior aos espaços rurais. Contudo, também estes espaços podem ter qualidade ambiental se forem pensados com base em valores diferentes ao que até hoje tem presidido às decisões de construir muito em pouco espaço e sempre numa perspectiva expansionista dos núcleos urbanos pré-existentes.

 

Voltemos aos espaços não urbanos para percebermos o privilégio de neles viver. Imaginemos um caçador, com a qualidade de conhecedor tradicional dos pormenores do meio natural ou pouco humanizado, que se ajoelha na borda de um ribeiro e curva o corpo para que directamente possa sorver a água corrente que lhe dá um alívio da sede que o tolhia e o prazer da frescura de um fim da manhã escaldante, desfrutando assim de vários privilégios ambientais.

 

Em todas as mudanças o factor determinante são as trocas de energia. No ambiente todas as mudanças se baseiam em trocas de energia. As nossas próprias acções básicas são trocas de energia. A energia está em tudo e sob uma diversidade de formas. Quando aplicamos energia num ponto retiramo-la de outro. Por exemplo, quando nos alimentamos retiramos dos alimentos a energia que por sua vez a adquiriram da terra, da água, do sol, da luz, dos combustíveis com que foram cozinhados, etc. Toda uma cadeia interligada que muitos não se apercebem e por isso não se sentem comprometidos com a preservação dos equilíbrios. Isso só é possível com um conhecimento universal, o que também é impossível. Contudo, essas impossibilidades não nos impedem de conhecer um pouco mais e estarmos melhor preparados para uma contribuição, mesmo que pequena, para que os elementos fundamentais do ambiente, que são a chave da existência humana, se mantenham em padrões que assegurem o equilíbrio entre o querer, o poder e o dever.


Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Opinião , Adérito Mendes , água , tendências
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