Adérito Mendes (Água-Tendências): Um imenso recurso para aproveitar as águas residuais domésticas

21.05.2018

Sempre entendi que é tão importante para o equilíbrio da balança comercial nacional o aumento das exportações como a substituição de importações pela produção nacional com recursos endógenos. Esta é uma das falhas que encontro no discurso dos políticos e na prática política sobre a recuperação da economia pós crise iniciada em 2008. Também a diversificação de opções de produção introduz resiliência à economia, sendo que um mix de aproveitamento de nichos de recursos e de mercado disponíveis e ainda não utilizados robustece as soluções que procuram concretizar a economia verde e ou a descarbonização e, já agora, a desnitrificação da atmosfera, de que a camada de ozono tanto padece.

 

Se analisarmos as Estatísticas Agrícolas do INE mais recentes encontramos facilmente, entre as importações, os adubos que usamos na base da produção agrícola que suporta a cadeia alimentar. Esses adubos são expressos nas estatísticas como os “azotados”, os “fosfatados” e os “potássicos”, para além dos “outros” não desagregados.

 

Sabemos que as lamas das ETAR já substituem uma pequena parcela da fertilização de solos mas sabemos também que estas infraestruturas não retiram todos os nutrientes das águas residuais e que o efeito cumulativo dos seus efluentes não podem nem devem ser negligenciados como pressões sobre a qualidade das massas de água. Esta constatação é bem patente nas declarações do Director dos Serviços de Saneamento de Paris, Jean-Pierre Tabuchi, quando afirma, numa recente edição da revista da IWA, que para repor o rio Sena em bom estado necessita retirar dos sistemas de drenagem de águas residuais que afluem às Etar a urina correspondente a 400.000 apartamentos por ano acrescidos desse valor todos os anos de modo a resolver o problema do excedente de azoto que os sistemas de tratamento não retiram.

 

A combinação da necessidade de aproveitar recursos renováveis que ainda são desperdiçados como tal, porque são considerados, por um lado, como resíduo (água residual) e, por outro, um problema, porque precisam de ser tratados antes de serem devolvidos às massas de água, com a necessidade de encontrar oportunidades para a economia circular nos sistemas urbanos de águas e saneamento, despertou-me a atenção para um movimento internacional emergente com expressão em países desenvolvidos como a Suécia, USA e Alemanha que promove o usos da urina humana como fonte de recursos para a fertilização agrícola. Assegura esta organização, Susana, com mais de 10.000 filiados individuais e cerca de 400 empresas, a actuar em todos os continentes, que a urina humana pode ser manipulada e utilizada directamente ou diluída na fertilização agrícola, porque é considerada patogénicamente pura, como o corroboram as especificações técnicas da generalidade das organizações que se dedicam à promoção desta prática, bem como as da OMS sobre a matéria. Este recurso é rico em azoto (N), fósforo (P) e potássio (K), que são os macronutrientes essências à alimentação das plantas e das culturas agrícolas, que se encontram diluídas em 95% de água que rejeitamos nos dispositivos sanitários.

 

Voltando às estatísticas agrícolas, verificamos que em 2016 Portugal importou 228.100 ton de adubos azotados, 7.100 ton de fosfatados e 73.700 ton de potássicos que em valor correspondem a 72.241.000 €.

 

Fazendo umas contas simples com os 10.300.000 habitantes portugueses apenas (não considerando outros tantos de estrangeiros turistas), que libertam diariamente entre 1-1,5 litros de urina, podemos chegar num ano a 3.759.500 m3 que poderiam ser recolhidos com dispositivos separativos nas casas de banho. Este volume poderia regenerar 40.170 ton de N, 8.240 ton de P e 9.270 ton de K, admitindo a produtividade da urina de N=3,9 kg/ano.hab, P=0,8 kg/ano.hab e de K=0,9 kg/ano.hab, seguindo os indicadores da Faculdade de Ciência Agrárias de Estocolmo-Suécia. Ao preço dos adubos importados de N=225 €/ton, P=207 €/ton e de K=264 €/ton encontramos um potencial de regeneração de fertilizantes a partir da urina na ordem de 13.200.000 € anuais que representariam uma redução da importação de adubos equivalente a cerca de 20% do valor das importações destes fertilizantes químicos.

 

Não aproveitar desta maneira para transformar uma coisa que é um problema numa oportunidade de regeneração de recursos, não é um imenso desperdício? Se isto não é desperdício quando as soluções são simples e já estão comprovadas, então o que será?

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

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