Colunista Adérito Mendes (Água-Tendências): Uma praia na Praça do Comércio para defender o Rio Tejo

20.09.2018

Esta titulada ideia, pode parecer uma ideia estapafúrdia mas não creio que assim seja se for encarada do ponto de vista estratégico/táctico, senão vejamos. O Tejo, na sua dimensão internacional, posicionada como a segunda maior bacia hidrográfica da península ibérica em área, com os seus 80.600 km2, dos quais apenas 31% (24.800 km2) em Portugal e estendendo-se em Espanha por 55.800 km2 (69%), tem dispersas pelo seu território imensas e diversificadas actividades que, de uma ou outra forma, tem reflexos sobre a qualidade e quantidade de água deste rio e seus afluentes e que chega ao estuário. Estes reflexos, pela dinâmica do escoamento das águas e da confluência da rede hidrográfica de montante para jusante, têm adicionalidade cumulativa no mesmo sentido com epílogo em frente à “sala de estar” da cidade de Lisboa, a Praça do Comércio, Terreiro do Paço, Praça Maior ou tantos outros nomes que já lhe ouvi chamar.

 

O facto é que Lisboa, com um mar interior a banhá-la, o Mar da Palha, não dispõe de nenhuma praia no seu concelho com areia clara e águas límpidas, as quais poderiam localizar-se ou no Parque das Nações, e ou entre Alcântara e Algés e ou, “cereja no cimo do bolo”, mesmo entre as duas estações fluviais que confinam a tão intensa zona turística da baixa ribeirinha alfacinha (nome derivado da variedade Lisboa do legume alface, para quem não saiba) engalanada com o cais das colunas. Dirão incrédulos os espantados com esta ideia: mas onde é que já se viu uma praia com água com qualidade interdita para banhos??!! Pois é aqui mesmo que reside a chave da estratégia. Se tivéssemos que garantir a qualidade da água para banhos na zona ribeirinha de Lisboa éramos obrigados a cuidar de todo o rio, da nascente à foz, tendo que cumprir a legislação europeia e nacional para este desígnio. Por outro lado, como a qualidade e a quantidade estão intimamente associados seríamos obrigados a fazer uma gestão do regime de caudais mais cuidada e ter acordos luso-espanhóis mais detalhados e eficazes.

 

Esta visão global para o Tejo evitaria episódios não acidentais de poluição como os que vêm ocorrendo e evitava medidas de emergências e circunstanciais como o virtuoso projecto Tejo Limpo. Todavia, as maiores exigências de qualidade de água imporiam maior ponderação sobre iniciativas de larga escala na utilização da água, como a que está a ser lançada publicamente para o Projecto Tejo-Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos, também já intitulado o Alqueva do Ribatejo, que também é um projecto virtuoso na medida em que as apostas na produção de agrícola são as mais resilientes e que alimentam a base da estruturação das sociedades. O momento e a forma como aparece o projecto exala a ideia de que é preciso começar a alinhar as grandes iniciativas de investimentos públicos já que se aproxima um novo ciclo financeiro nacional e europeu e que o Alqueva já está na recta final. Este investimento tem muitas virtudes, tal como apontei num relatório comparativo entre este e o do Alqueva e que esteve na base da decisão política do relançamento deste num anterior ciclo de investimentos públicos no final dos anos 80 do século passado. Mas o contexto global e nacional é muito diferente. Hoje temos à porta os efeitos das alterações climáticas e um agudizante despovoamento do interior do país. Enquanto que Alqueva contribui e contribuirá para atenuar ou mesmo reverter este fenómenos o Projecto Tejo deixa-me hesitante porque, se for desenvolvido integrando a navegabilidade e outras valências que estão estudadas até à exaustão nos documentos elaborados há 50 anos e carentes de actualização, parece-me uma aposta com elevado potencial de êxito a longo prazo como está a ser demonstrado na navegabilidade do Douro e e vai sê-lo no Alqueva. Muito se poderia dizer sobre a avaliação de projectos desta natureza pelo que voltarei a abordar o assunto em próximo artigo.

 

Qual a alternativa a esta tipologia de investimentos? É a questão do “milhão”. Se encararmos seriamente as ameaças que as alterações climáticas comportam associadas ao despovoamento que descaracteriza o território e empobrece a oferta de diversidade ecológica, económica e social, parece-me óbvio que as apostas no domínio da água passam pela criação de uma rede nacional de origens de águas com pequenas barragens com regularização interanual no interior do país. Esta política de oferta pública permite manter os que ainda resistem no interior do país em actividades dependentes da água e potenciava inovadoras iniciativas de base territorial que apoiariam a reversão do despovoamento e da desertificação.

 

Como em qualquer orçamento limitado, temos que fazer opções entre prioridades de investimento. O que está em causa é classificar as prioridades. Por isso, questiono-me se em vez de investimentos no litoral se não seria mais urgente apostar em investimentos que estanquem ou revertam o despovoamento do interior do país e ao mesmo tempo apostem na adaptação às alterações climáticas!!

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

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