Colunista Ana Luís (Água - Gestão de Activos): Gerir ativos, gerir relações

29.02.2016

Há cerca de 10 anos, um artigo sobre gestão de ativos publicado pela AWWA – American Water Works Association – chamou-me particularmente a atenção devido ao seu título: “Asset Management too complicated? Just think about your car”. Atrevo-me hoje a escrever sobre o ciclo de vida dos ativos fazendo uma analogia não com os carros, mas com as relações humanas. Senão, vejamos: 

 

  • Tal como exposto no artigo anterior “Jogar com as melhores cartas”, a fase de Planeamento pode ser decisiva para o modo como os ativos irão desempenhar a sua função. É nesta fase que “A importância dos valores” assume um papel de destaque, uma vez que os objetivos que traçamos devem traduzir uma visão de longo-prazo. Sem este horizonte, também muito dificilmente as relações resistirão – “se der, deu, se não der, não deu” é uma posição de partida muito arriscada.
  • Na fase de Aquisição / Instalação não deixa de ser importante considerar todos os pontos de vista (facilidade de construção mas também de manutenção e operação posteriores) - e não só “o meu”, ou “à minha maneira”.
  • A fase da Operação consiste em operar os ativos de forma a que estes cumpram as suas funções, e com isso assegurar os objetivos estratégicos da empresa. Para tal, será necessário ir monitorizando o seu desempenho – medindo o pulso à relação – e corrigindo e ajustando o que for necessário.
  • Os ativos, tal como as pessoas, são sujeitos a desgaste, pelo que a fase de Manutenção é essencial. Inevitavelmente, haverá alturas em que os ativos / relações deixam de funcionar. É nessas ocasiões que importa, acima de tudo, perceber as causas que levaram a esse ponto, e corrigir os problemas (Manutenção corretiva) na sua origem. Daí que não surpreenda que a utilização de técnicas como “Árvore de falhas”, “Árvore de eventos” ou “Bow-tie” (a minha favorita) comece agora a surgir na agenda das empresas de água em Portugal – embora já há muito as mesmas venham sendo utilizadas noutros países, ou no nosso país mas em outros setores. É certo que, quanto mais se apostar na Manutenção Preventiva, menos frequentes serão os momentos de falha: cuidar da relação / dos ativos, disponibilizar tempo e alguns recursos são apostas que compensam largamente os custos emocionais / monetários e de impacto no serviço associados à reparação das falhas.

 

  • Por vezes, quando as falhas são muito frequentes e/ou com consequências graves, os ativos atingem o seu ponto crítico – e as relações entram em crise. Chegando a esse ponto, impõe-se a pergunta: vale a pena lutar por ultrapassar? Ou estará na hora de desativar? A resposta a estas perguntas nem sempre é fácil de obter. Na verdade, existe uma “bottom-line” (variável de caso para caso) que, quando ultrapassada, pode recomendar a desativação do ativo, sob pena de qualquer recurso adicional empregue não ter retorno e de se continuar a sujeitar o ativo a um crescente desgaste. Planos de Desativação elaborados com base em metodologias estruturadas são pouco frequentes no nosso setor, precisamente porque não é fácil estabelecer a referida “bottom-line”. Caso a opção recaia na Reabilitação do ativo / relação, será necessário investir. Se bem-sucedido, o ativo, e a relação, sairão fortalecidos: de acordo com as normas internacionais de relato financeiro, considera-se “investimento” quando a intervenção sobre o ativo se traduz num aumento da vida útil ou do desempenho do mesmo.

 

Equilibrar o melhor possível os riscos, os custos e o desempenho pretendido em cada uma daquelas fases não é algo que surja naturalmente - exige preparação, motivação, empenho, dedicação e trabalho. Mas no final poderemos verificar, com satisfação, que na gestão dos ativos, tal como nas relações humanas, os resultados assumem um carácter de transcendência: perdurarão para as gerações vindouras….

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , Gestão de Activos
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