Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): A barragem de Oroville e os “Planos B”

03.03.2017

Estreei-me em projetos de investigação científica em meados da década de 90, participando no Projeto NATO – PO Floods. Envolvendo o IST e o LNEC, este projeto tinha como foco central a simulação de ondas de cheia decorrentes de roturas de barragens. Depois, nessa mesma década, integrei um consórcio que elaborou os primeiros Planos de Emergência Internos de 10 barragens em Portugal.

 

Talvez por isso, e também porque os incidentes ou quase-acidentes são uma fonte riquíssima de ensinamentos para a Gestão do Risco (O que correu mal? Poderia ter sido evitado? O que temos de melhorar?), segui atentamente os acontecimentos do passado mês de fevereiro na barragem de Oroville – a maior barragem de terra dos EUA, com 235 m de altura, construída há 50 anos.

 

Com efeito, no mês passado o nível da albufeira subiu de tal forma que foi necessário abrir a comporta do descarregador principal para que não ocorresse o galgamento da barragem, fenómeno que poderia levar ao respetivo colapso. Mas nem tudo correu bem.

 

Poderia aqui falar da cratera que se abriu no descarregador principal da barragem, e de como o mesmo não terá sido alvo de manutenção, reabilitação ou nem mesmo inspeções, pelo menos nos últimos anos.

 

Ou poderia comentar a bondade da decisão de fechar a comporta do descarregador, permitindo que o nível da albufeira subisse, mas confiando na capacidade do descarregador de emergência (que, até então, nunca tinha exercido a sua função).

 

Poderia ainda notar sobre como, há 50 anos atrás (tal como hoje), era difícil prever as séries hidrológicas futuras, mesmo dimensionando os órgãos das barragens para coisas tão esotéricas como a “cheia dos 1000 anos” ou a “cheia dos 5000 anos”.

 

Porém, após passar em revista os vários acontecimentos, a objetiva da Gestão de Ativos recaiu nos que respeitam ao descarregador de emergência.

 

Fechada a comporta do descarregador principal, e tal como se esperava, o nível da albufeira começou a subir rapidamente, atingindo em pouco tempo a cota do descarregador de emergência (uma soleira de betão “cravada” numa parte rebaixada do coroamento da barragem).

 

Tudo estava a correr bem até que, após uns quantos metros cúbicos de água descarregados, surgiu um novo problema: a força da água descarregada começou a erodir o paramento de jusante da barragem, bem por baixo do descarregador de emergência, colocando o mesmo em risco de colapso. É que, ao contrário do descarregador principal, aquando da sua construção não foi previsto um canal de betão para encaminhamento da água descarregada, escorrendo esta sobre o material do paramento de jusante da barragem: terra!

 

Seguiram-se momentos de aflição e de mais decisões difíceis, pois se o bloco de betão que constitui o descarregador de emergência se destacasse do corpo da barragem, uma cortina de água com cerca de 9 metros de altura desceria os 235 metros da barragem pelo vale abaixo, causando uma onda de destruição sem precedentes naquela região.

 

Como resultado, cerca de 200 mil pessoas foram preventivamente evacuadas das suas casas para outros locais, enquanto helicópteros e camiões tentavam “preencher” a zona erodida com pedras, para que a soleira não ficasse “descalça”. Em simultâneo, abriram-se novamente as comportas do descarregador principal, mesmo estando danificado: o importante era garantir que o nível da albufeira baixava, de modo a aliviar o descarregador de emergência.

 

No final, e porque a precipitação que entretanto ocorreu não foi suficiente para fazer o nível subir, tudo acabou bem.

 

Precisamente na mesma semana em que eu seguia todos estes acontecimentos, contaram-me uma história verídica sobre um gerador de emergência (mais um “Plano B”) que tinha sido temporariamente deslocado para outro local justamente na altura em que – adivinhem o quê? – este foi mesmo necessário no local onde pertencia. Como consequência imediata (a que se seguiram outras), todo o sistema informático ficou danificado, causando imensos transtornos a essa importante indústria.

 

Estes dois episódios fizeram-me refletir sobre a importância dos ativos de “emergência”, vulgo “redundâncias”. E como os mesmos tantas vezes são descurados – seja logo na fase inicial do seu ciclo de vida, Planeamento (ex.: pela sua ausência), seja na de Conceção (onde usualmente se comete a maioria dos erros), ou na de Operação.

 

Esta é, claramente, uma questão que envolve o correto equilíbrio Desempenho – Risco – Custo. No caso da barragem de Oroville, ficou patente que o custo da não construção de um canal de betão para encaminhar a água do descarregador de emergência não compensou o risco associado aos acontecimentos do passado mês de fevereiro (facto que, aliás, já tinha sido referenciado por organizações ambientais).

 

E dei por mim a pensar como ter “Planos B” que não respeitam o trinómio Desempenho-Risco-Custo pode até ser pior do que não os ter – porque, perigosamente, estes induzem uma falsa sensação de segurança. 

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , água , gestão de ativos
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