Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): Conversas cruzadas

30.05.2016

Ouvi uma vez o escritor e jornalista José Rodrigues dos Santos explicar a razão de as pessoas geralmente preferirem os livros aos filmes, nos casos em que a respetiva história é transposta para o cinema: enquanto no livro a história é também idealizada pelo leitor, tal já não sucede no cinema. E exemplificava: quando o livro menciona “a mais bela mulher”, cada leitor projeta na sua mente o seu ideal de beleza; mas no caso do filme, o realizador tem mesmo de escolher uma determinada atriz.

 

Veio-me esta entrevista à memória a propósito de uma série de situações que tenho presenciado, nas quais se instala uma certa confusão – ou mesmo discussão – no diálogo.

 

Refiro-me concretamente à utilização de alguns adjetivos e nomes muito em voga hoje em dia: “resiliente”, “eficiente”, “vulnerável”, “adaptação”, “risco”, etc. Apesar de não serem verbos, farei um abuso de linguagem afirmando que estes adjetivos e nomes são transitivos, i.e., necessitam de complementos (diretos, indiretos, ...) para fazer sentido.

 

De facto, se na leitura de um romance a liberdade de imaginação é benéfica, quando falamos destes importantes temas relacionados com água e ambiente, a mesma poderá ser propiciadora de muita confusão.

 

Vejamos: se falarmos de uma empresa do setor da água “eficiente” junto de uma equipa de combate às perdas, esta pensará em termos de minimização de perdas de água; se junto de um gestor de cliente, este pensará nos tempos (e qualidade) do atendimento ao cliente; se junto de um gestor de energia, em eficiência energética; e por aí adiante. Sendo a eficiência sempre um meio e não um fim, importa contextualizar qual o fim em causa.

 

O mesmo raciocínio se aplica, por exemplo, ao adjetivo “sustentável”: poderemos estar a falar de sustentabilidade económica, ambiental, etc., não sendo estes contextos, de todo, sinónimos.

 

Por outro lado, se não se acrescentar “ao quê”, o adjetivo “Vulnerável” deixa margem para muita confusão, sendo que, analogamente, num exercício (ou conversa) de análise de risco a frase mais importante é “Risco do quê e para quem” – pois se isto não estiver claro desde o início, não obstante as fases seguintes do exercício poderem estar formalmente corretas, o resultado passará ao lado do objetivo.

 

Importa ressalvar que existem situações em que estes “complementos” são dispensáveis: é o caso, por exemplo, de títulos de congressos onde são abordados diversos painéis temáticos – e, como tal, é até desejável tirar partido do caráter genérico dos conceitos atrás referidos.

 

No entanto, no dia-a-dia, os “complementos” assumem uma importância grande (embora discreta) na clarificação do discurso entre diferentes partes, bem como na definição de objetivos (passo essencial numa política de gestão de ativos) e no desenvolvimento de uma abordagem de gestão do risco.

 

Assim, sejamos eficientes em termos da duração das reuniões, assegurando a sustentabilidade das respetivas conclusões, evitando ser vulneráveis à pluralidade de sentidos associados a um mesmo conceito, e reduzindo o risco de a ausência de “complementos” gerar mal-entendidos... afinal, não custa assim tanto! 

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , gestão de ativos , conversas cruzadas
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