Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): Gestão de Ativos – “slow food” ou “fast food”?

09.05.2017

Quando falamos em mudança, podemos distinguir essencialmente três tipos quanto ao ritmo a que a mesma se efetua: (i) evolução lenta, incremental; (ii)  evolução rápida, como as que se associam às tecnologias de comunicação; (iii) mudança drástica ou súbita, causada por algo disruptivo – como o “Google” ou a Internet em geral, por exemplo.

 

A implementação de uma estratégia de Gestão de Ativos recai no primeiro caso, embora possa tender para o segundo se a empresa estiver já num estado de maturidade avançado. São vários os fatores que contribuem para tal.

 

Desde logo, subjacente à implementação da Gestão de Ativos está uma mudança cultural (ex.: acabar com os “silos” ou com as “quintas” dentro da empresa), sendo que esta exige tempo para se efetivar – o qual pode ser encurtado se houver um forte apoio por parte da gestão de topo da empresa. A própria dimensão da empresa e do sistema de ativos será um fator determinante para a rapidez da implementação, atrevendo-me a sugerir que estão em vantagem as empresas de média dimensão – já que em empresas grandes o trabalho de base a efetuar será maior, e que em empresas pequenas nota-se, frequentemente, a falta de recursos humanos capacitados.

 

Por conseguinte, é importante ter a noção de que a implementação da Gestão de Ativos se efetua através de um processo gradual, pelo que se desengane quem pense que a Gestão de Ativos, em jeito de “fast food”, se faz através da mera instalação de um software ou da redação de normas, procedimentos e planos. Se assim fosse, qualquer empresa, de qualquer dimensão, poderia assistir a uma mudança súbita em termos de criação de valor (ou de custos evitados).

 

Felizmente, o tempo despendido tem as suas contrapartidas, já que as mudanças incrementais e implementadas de forma sustentada são depois as que mais perduram. Olhemos, por exemplo, para a evolução do homem, enquanto espécie: ao longo de milhões de anos, passamos de seres aquáticos a répteis, de répteis a macacos e, por fim, o homo sapiens que ainda hoje somos; e, numa escala de tempo diferente, também enquanto indivíduos, iniciamos a vida em ambiente aquático, somos quadrúpedes ao fim de alguns meses de vida, verticalizamo-nos e evoluímos até atingir a idade adulta durante o primeiro quarto de vida.

 

Existem na literatura algumas escalas de maturidade para avaliar a implementação de uma lógica de Gestão de Ativos nas empresas - aliás, muito semelhantes às que são utilizadas para avaliar a maturidade da implementação de processos de Gestão do Risco. Mas o que considerei deveras interessante foi observar um gráfico onde se cruza a evolução da maturidade da Gestão de Ativos numa empresa com o esforço que é necessário despender para tal.

 

Se, numa fase inicial, o esforço atinge o seu máximo ainda sem grandes resultados a nível de evolução da maturidade, nas fases intermédias e, sobretudo final, assiste-se ao inverso: com um esforço mínimo, progride-se para estádios de maturidade (e consequente criação de valor) superiores. Que paralelo com a evolução do Homem!

 

O que é preciso, então, para pôr em marcha este movimento, havendo a consciência de que os frutos não serão imediatos? Ou, por outras palavras: será que a implementação da Gestão de Ativos requer um ato de fé por parte dos gestores de topo das empresas? Certamente que não, pois temos já muitos e bons exemplos, a nível nacional e internacional, que demonstram os benefícios de se encetar tal jornada.

 

É necessária, antes, uma Visão orientada para o futuro e para a excelência na prestação do serviço com retorno para clientes e acionistas. Acresce que, tal como na evolução da espécie, também a resposta a circunstâncias exteriores poderá ser catalisadora da mudança – por exemplo, num clima de restrição financeira torna-se útil apostar na eficiência dos ativos ou na gestão adequada do risco.

 

Se, do ponto de vista da gestão da empresa, seria desejável que o processo de implementação da Gestão de Ativos fosse súbito ou de progressão rápida, resta o conforto de que a vivência de várias etapas até se atingir a maturidade, tornam o processo sustentável. E não esqueçamos também que, tal como defendem vários investigadores nas áreas da sociologia e psicologia, o gozo está mais no percorrer de cada uma dessas etapas do que na chegada à meta… 

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , Gestão de Ativos
Vai gostar de ver
VOLTAR