Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): O paradoxo da (in)visibilidade

31.01.2017

No plano profissional, poucas coisas me dão tanto prazer como lecionar – ou, melhor dizendo, partilhar conhecimentos e experiências. Numa formação que dei recentemente sobre Gestão de Ativos, passei um vídeo sobre a forma como as infraestruturas nos EUA (não) estão a ser geridas e, a partir daí, refletimos sobre os desafios que se colocam a uma efetiva Gestão de Ativos: segurança, serviço, integridade, construção, recursos humanos, manutenção, vida útil, planeamento, financiamento, gestão do risco, imagem e reputação, legislação, etc.

 

Uma das frases que, com bastante sentido de humor, é proferida nesse vídeo, é “o melhor que pode acontecer é nada acontecer” – frase esta que poderia ter sido retirada de um qualquer manual de gestão do risco.

 

Sendo a “gestão do risco” um dos três pilares da Gestão de Ativos (a par do “custo” e do “desempenho”), não surpreende que esta frase tenha surgido no referido vídeo.

 

Na verdade, ao gerirmos adequadamente o risco de falha dos ativos, para um determinado nível de desempenho estipulado, estamos a prevenir que consequências indesejadas venham a ocorrer, seja no plano financeiro, no da imagem ou no do próprio serviço. Mas, por seu turno, se essas consequências não chegam a ocorrer, o papel da Gestão de Ativos pode, eventualmente, passar despercebido!

 

Pode suceder que já ninguém se lembre da rotura num adutor crítico que foi evitada porque se procedeu a uma inspeção que detetou um estado de pré-rotura nesse troço, permitindo atuar preventivamente; ou dos milhões de euros cuja má alocação no Plano de Investimentos foi impedida, por se ter recorrido a técnicas de apoio à decisão adequadas; ou dos milhares de metros cúbicos que não se perderam nas redes de adução e distribuição, por existir uma política de setorização e monitorização contínua; ou…

 

O perigo de a Gestão de Ativos cumprir bem a sua missão é, paradoxalmente, o de, a determinada altura, se vir a instalar uma atitude mais complacente, a qual poderá até levar a questionar a própria existência da Gestão de Ativos…

 

Porém, convém não esquecer que riscos e oportunidades são dois lados da mesma moeda: a par desta “invisibilidade” associada a uma boa gestão dos riscos, coexiste um manancial de oportunidades – estas, sim, bem visíveis (embora, por vezes, difíceis de quantificar): maior eficiência hídrica e energética; prolongamento da vida útil dos ativos; melhores resultados financeiros; e ganhos reputacionais junto dos clientes, empresas congéneres e instituições financeiras.

 

Por isso, valerá a pena o esforço de salientar estas oportunidades, por mais incipientes - ou (outro paradoxo!) por mais evidentes - que possam afigurar-se a quem tem a função de Gestão de Ativos.

 

É que, na realidade, há o “ser” e o “parecer”. Não é bom quando o “parecer” se sobrepõe ao “ser”. Mas, no caso da Gestão de Ativos (e da Gestão do Risco) podemos afirmar que “não basta ser, há também que parecer”.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , água , Gestão de Ativos
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