Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

31.03.2017

Como já tenho vindo repetidamente a sublinhar, uma das marcas que distingue a Gestão de Ativos de outras disciplinas é o enfoque na tomada de decisão sobre os ativos envolvendo “trade-offs” entre as dimensões “Risco”, “Custo” e “Desempenho”. Atrevo-me a dizer que, porventura, a dimensão “Risco” será aquela que introduz o traço mais distintivo, já que o balanço “Custo-Desempenho” há muito que se vem fazendo através de análises técnico-económicas.

 

Consoante o tipo de decisão em causa (nível operacional, tático ou estratégico; ativo pouco importante ou ativo crítico; curto prazo ou longo prazo; …), assim também varia o tipo de metodologias a que podemos recorrer para auxílio da tomada de decisão.

 

Por vezes, se já dispomos de todos os dados relevantes, trata-se apenas de olhar para eles com o tempo e o enfoque suficientes. Quando assim o fazemos, a decisão torna-se clara. Recordam-se de visualizar estereogramas, que fizeram furor nos anos 90? Pois é exatamente a esse tipo de fenómeno que me refiro.

 

Noutros casos, porém, não basta dedicar tempo e concentração: é preciso aprender a olhar. Por exemplo, com a minha professora de filosofia aprendi a olhar – e a questionar – os valores da sociedade (“porque é que a preguiça há de ser uma coisa má?”, perguntava ela); numa aula de geologia aprendi a olhar para a inclinação dos estratos rochosos nos cortes dos taludes das estradas e, desde aí, perceber como há milhões de anos a Terra se tem vindo a formar e transformar; através de muitos ensinamentos que fui recebendo ao longo da vida, aprendi a percecionar um sentido de transcendência muito para além do material; etc.

 

Outras vezes, quando o grau de complexidade da decisão aumenta, é necessário combinar os dados de determinada forma, até se “fazer luz”. Sempre me espantei como a partir de oito notas musicais apenas (com os respetivos tons e meios-tons), se conseguem compor tantas e tão belas músicas diferentes – o que resulta de diferentes combinações de ritmos, tempos, compassos e melodias.

 

Por isso, na Gestão de Ativos é importante saber que técnicas aplicar em cada tipo de decisão.

 

Não vale a pena usar algoritmos muito sofisticados quando uma mera sistematização dos dados de base é suficiente para permitir tomar uma boa decisão (ex.: escolha entre duas alternativas em que uma delas é sempre mais vantajosa em todos os critérios relevantes).

 

Escolher indicadores adequados que permitam agregar variáveis de base e dispô-los num referencial XY, propicia uma visualização simples e intuitiva dos fatores chave, auxiliando em muito a tomada de decisão. No limite, esta abordagem pode recair na denominada DEA (Data Envelopment Analysis), uma técnica já mais complexa mas bastante popular em termos de apoio à decisão.

 

Análise de Risco e Análise Multi-critério são duas das metodologias mais utilizadas, aplicáveis a problemas com diferentes graus de complexidade – sendo que, no caso da Análise de Risco, poderá ser necessário recorrer a outras metodologias para determinar o próprio Risco - quer no que se refere à Probabilidade (ex.: diagramas de influência), quer à Consequência de ocorrência de determinado evento.

 

Não escondo que, não raras vezes, tenho uma sensação de assombro quando chego ao fim da aplicação de uma destas técnicas e me encontro diante de um rol de conclusões que antes não conseguia sequer vislumbrar (como sucedeu, por exemplo, num recente exercício de aplicação de análise de risco à priorização de investimentos). É o mesmo tipo de assombro de quando assistimos a um espetáculo de ilusionismo dos melhores, e no final do truque algo desaparece sem percebermos como… só que, neste caso, funciona ao contrário – primeiro não vemos nada e depois aparece algo muito nítido, como que por magia.

 

Ressalvo, contudo, que tenho visto muitas destas técnicas – desde as mais simples às mais complexas - a ser utilizadas de forma incorreta, embora por pessoas muito bem-intencionadas. E não posso deixar de notar como depois se retiram conclusões igualmente incorretas. Se pensarmos que por detrás destas decisões estão em jogo, por vezes, milhões de euros ou o cumprimento de níveis de serviço ou de outros objetivos estratégicos da empresa, é inevitável recomendar cautela e prudência na aplicação destas técnicas.

 

Note-se que não quero com isto dizer que se tratam de técnicas a aplicar apenas por ilustres académicos (sem qualquer desconsideração pelos mesmos, a quem prezo muito), mas antes de técnicas que, na maior parte das vezes, requerem formação prévia para poderem ser utilizadas de forma adequada.

 

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” diz José Saramago no início do seu impressionante “Ensaio sobre a cegueira”. Pois é esse o repto que hoje aqui vos deixo.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

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