Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): Uma questão cultural

03.10.2016

Como já tive oportunidade de expressar anteriormente, a Gestão de Ativos não é só uma questão de dispor de informação sobre os ativos (Que ativos tenho? Onde estão? Qual o seu valor? Qual a sua condição e funcionalidade? Qual a sua criticidade?), nem de ter esta informação em sistemas de informação da empresa que comuniquem entre si, nem de avaliação de indicadores, nem tão pouco de elaboração de Planos.

 

Tudo isso contribui para a implementação e perseverança de uma filosofia de Gestão de Ativos, e tomara as empresas alcançarem um “pleno” em todas essas vertentes. Contudo, a criação de valor (desígnio máximo da Gestão de Ativos), através da passagem de uma lógica reativa para preventiva, de eficácia para eficiência, dentro de níveis de risco toleráveis, não se consegue sem a construção de uma verdadeira cultura de Gestão de Ativos.

 

Quando temos que tomar decisões lá em casa e não estamos todos de acordo, tentamos responder à pergunta: “o que é melhor para o bem comum?”. Nas empresas, uma cultura de Gestão de Ativos pressupõe que se pense: “o que é melhor para a empresa?” – entendendo-se, como tal, não só a empresa em si, como também os seus principais stakeholders: clientes e acionistas.

 

Pensar desta forma, quando muitas vezes o que sai naturalmente é “o que é melhor para mim?”, “o que é melhor para a minha direção?”, “o que me dá menos trabalho?”, exige uma mudança cultural e, como tal, leva tempo. Porventura, mais tempo até do que implementar as medidas tecnológicas e processuais de apoio à Gestão de Ativos atrás referidas – como disse um conhecido sociólogo, demorou menos tempo inventar o leite em pó do que pôr os pais (no masculino) a dar o biberon aos seus bebés.

 

Há inúmeros estudos e teses sobre a importância da cultura da empresa na implementação de processos transversais, como a Gestão de Ativos ou a Gestão do Risco, e sobre as formas como essa cultura pode ser trabalhada até essas práticas estarem enraizadas. Consagrados como princípios / requisitos da norma de Gestão de Ativos, ISO 55001, podemos destacar, desde logo, algumas dessas formas: (i) o envolvimento da Gestão de Topo; e (ii) a existência de uma Direção ou Comité Transversal de Gestão de Ativos, que, de uma forma isenta (“o que é melhor para a empresa?”), promova o acompanhamento e facilitação das tomadas de decisão ao longo das fases do ciclo de vida dos ativos (planeamento, construção/reabilitação, manutenção/operação e desativação), em estreito alinhamento com os objetivos e estratégias definidos pela Gestão de Topo.

 

Aceitemos assim o desafio de pensar e agir de forma diferente. Se é verdade que sem desvio à norma (i.e., ao que é o “normal”) não pode haver progresso... então que esse desvio seja no sentido do “bem comum”.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , EPAL , gestão de ativos
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