Colunista Ana Luís (Água- Gestão de Ativos): Ver bem ao perto ou ao longe?

30.06.2016

Este foi o dilema perante o qual o meu oftalmologista me colocou, quando estava a ponderar fazer a cirurgia a laser para corrigir a miopia (segundo ele, quem tem miopia verá sempre bem ao perto; mas se corrigir a miopia, tipicamente por volta dos 50 anos começará a precisar de óculos para ver ao perto, tal como a maioria das pessoas).

 

Na gestão de ativos, não se trata de uma questão de escolha: precisamos de ver bem ao perto e ao longe. Aliás, o trade-off “curto prazo” vs “longo prazo” é um dos desafios desta disciplina, já que as decisões tomadas em determinado momento poderão ter repercussões por muitos anos.

 

Não obstante subsistirem ainda em Portugal muitas entidades gestoras que precisam de afinar a sua “visão ao perto”, esta é, ainda assim, a prática mais generalizada: conheça-se o sistema e os ativos que o compõem, e monitorize-se os indicadores de desempenho adequados a cada nível de análise (sistema, ativo ou componente).

 

Pelo contrário, a utilização de técnicas para “ver bem ao longe” não é ainda do domínio comum, mas é minha convicção que lá se chegará.

 

Por exemplo, ao nível do ativo, ou componentes, podem ser usados modelos preditivos do respetivo comportamento / deterioração para antecipar qual será o melhor momento para a sua substituição.

 

Subsequentemente, para se selecionar o novo ativo a adquirir entre um leque de opções do mercado, podem-se usar técnicas de life-cycle costing. Estas incorporam análises de risco para contemplar a incerteza associada à evolução das diversas variáveis que irão ter influência no custo total do ciclo de vida do novo ativo.

 

Já ao nível do sistema ou da empresa, i.e., a um nível estratégico, podem ser elaborados cenários futuros, com base em análise prospetiva – cenários que contemplem não só os efeitos das alterações climáticas, mas também os decorrentes de alterações demográficas, legislativas, tecnológicas, de hábitos de consumo, de usos do solo, de governança, etc.

 

Encontrar o equilíbrio entre as vantagens a curto prazo e a longo prazo de determinada decisão não é um exercício fácil, sobretudo pela inevitável incerteza que este último plano acarreta – mas por isso mesmo se torna útil considerar cenários futuros plausíveis.

 

Talvez para contornar alguma ansiedade, sobretudo se o futuro não se antecipa brilhante, por vezes adoptamos o lema “um dia de cada vez”. Mas não nos esqueçamos que esse dia poderá ser melhor vivido se nos tivermos preparado antecipadamente para ele, numa atitute pro-ativa em vez de reativa.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: opinião , água , gestão de ativos , Ana Luís
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