Colunista Ana Luís (Gestão de Ativos): O valor da Idade

30.05.2017

Termino um exame de imagiologia. Por erro do sistema informático, as imagens de Raios-X acabadas de obter são associadas a outra pessoa. “Por acaso a senhora não se chama Ana Correia, pois não?” – pergunta o técnico. “Não”, confirmo eu. - “Eu vi logo que não podia ser!”. “Ah sim? Como?”, inquiro eu. “Pela idade!” – “Pela idade?” -  retribuo a resposta em forma de pergunta, intuindo que a dita senhora deveria ter uns 80 anos, ou perto disso. – “Sim, é que a senhora Ana Correia tem 30 anos.” !?! [silêncio da minha parte] “Não é que eu esteja a chamar velha à senhora…”, acrescenta o técnico, notando o sorriso amarelo de quem anda na primeira metade da sua quarta década de vida…

 

Paradoxalmente, em ambiente de trabalho não raramente me atribuem menos anos de vida do que os que tenho, aquando dos primeiros contactos com pessoas que não me conhecem.

 

E, por estranho que possa parecer, não gosto particularmente de nenhuma das situações atrás descritas: na primeira, porque me parece “subtraído” um certo valor de juventude; e, na segunda, porque me parece que aliada à menor idade me estarão a associar alguma falta de experiência ou a retirar valor à senioridade.

 

E com os ativos? Será a idade um fator importante a ter em conta? Sem dúvida que sim.

 

Desde logo, porque é a partir da idade que se determina a vida útil contabilística de um ativo e, desde aí, se calculam as depreciações e o valor do ativo.

 

Depois, porque na ausência de informação técnica como o desempenho ou o estado de conservação do ativo, a idade é o melhor indicador (proxy) para se determinar a vida útil técnica remanescente do mesmo.

 

Por outro lado, conhecer em que fase da sua vida se encontra o ativo (vida útil ou vida madura, i.e., final da sua vida útil) permite a adoção de técnicas de apoio à decisão distintas: em vida útil pode-se recorrer a Reliability Centered Maintenance ou Risk Based Maintenance para determinar o grau e periodicidade de manutenção; e, em vida madura, recorrer a técnicas de Life Cycle Costing para decidir o momento de substituição do ativo. No final, consegue-se otimizar os custos de Manutenção, bem como os de Investimento da empresa – gerando-se valor.

 

Mas se, no caso das pessoas, é fácil saber-se que idade temos – bastará consultar o ano de nascimento no Cartão de Cidadão –, já nos ativos infraestruturais a situação é mais complexa. De que idade estamos a falar: idade contabilística ou idade técnica (em teoria, as duas deveriam coincidir)? Quando nasce o ativo: na altura da sua construção / aquisição, ou quando este entra efetivamente em exploração (porque poderá haver uma diferença de tempo considerável entre estes dois momentos)? Onde podemos consultar os dados de origem: em sistemas de informação ou em infindáveis autos de medição e listas de preços das respetivas obras?

 

Na realidade, ainda não está generalizada a prática de registar o valor e a idade dos ativos em moldes que tornem fácil encontrar essa informação a posteriori – sendo este, a meu ver, um dos principais desafios que se colocam à Gestão de Ativos.

 

Resulta então que, quando se necessita dessa informação, recorre-se à adoção de diversos pressupostos, com os inerentes erros e incertezas associados, o que seria evitável se “os pais da criança” procedessem corretamente ao registo dos seus dados logo na altura do seu nascimento.

 

Sem dúvida que, desta forma, seria mais fácil tomar as decisões que otimizam os custos de Manutenção e de Investimento e, por outro lado, se evitariam desencontros de expetativas quanto ao valor dos ativos em dado momento da sua vida – tal como sucedeu comigo aquando do exame de Raios-X.

 

 Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Ana Luís , água , gestão de ativos , idade
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