António Sá da Costa: A notícia sobre eletricidade renovável em Portugal que deu volta ao Mundo

16.06.2016

Portugal foi notícia por esse Mundo fora no passado mês de maio por causa da sua eletricidade renovável, pois obtivemos um recorde invejável uma vez que por 107 horas consecutivas o consumo elétrico do nosso País foi integralmente abastecido por eletricidade gerada em centrais renováveis (a eletricidade renovável foi superior à totalidade do consumo de Portugal Continental), faltando apenas uma hora para atingir 4,5 dias.

 

De facto, entre as 6:45h de dia 7 e as 17:45h do dia 11 de maio de 2016 o consumo total de eletricidade foi 566.2 GWh tendo sido a produção de eletricidade renovável no mesmo período de 633.5 GWh, ou seja, a produção renovável ainda suplantou o consumo em 67,3 GWh. Por seu lado o saldo total exportador no mesmo período foi de 147,4 GWh, enquanto o consumo em bombagem hidroelétrica foi de 33,9 GWh. Devo ainda referir que neste período a produção renovável repartiu-se da seguinte forma: 53.1% hídrica, 41.8% eólica, 4.1% biomassa e 1.0% solar.

 

Ter o consumo nacional de eletricidade abastecido só por centrais renováveis já não é novidade, mas por um período tão longo consecutivo é que é de salientar.

 

Este ano, e até ao final de maio, a produção das centrais renováveis já foi responsável por uma produção superior ao consumo em 1123 horas, dum total de 3648, isto é, em 31% do tempo. Por outras palavras, nos últimos 5 meses mais de 46 dias, isto é, mês e meio, a eletricidade produzida pelas centrais renováveis foi suficiente para superar o consumo.

 

Claro que não foi consecutivamente, claro que houve centrais fósseis a funcionar, mas o que pretendo salientar é que a eletricidade renovável produzida desde o início do ano teve uma expressão muito importante, permitindo reduzir as nossas emissões, satisfazer o nosso consumo de forma exclusiva em 31% do tempo e ainda exportar quantidades significativas de energia elétrica.

 

Contudo, não se pode desprezar a contribuição das renováveis nas restantes horas destes primeiros cinco meses do ano pois, até à data, não houve uma única hora em que as centrais renováveis não dessem uma contribuição significativa, tendo o valor mínimo sido registado entre a uma e as duas horas da manhã do dia 2 de abril com 18%.

 

As centrais renováveis produziram desde o início do ano 18.9 TWh valor que representa 88% do consumo verificado que foi de 21 3 TWh. Claro que a distribuição temporal desta produção não segue o diagrama horário de consumo, pelo que os ajustes, para além do papel muito relevante desempenhado pelo armazenamento hidroelétrico, são complementarmente feitos pelas centrais térmicas nacionais a combustíveis fósseis e pelas trocas com Espanha.

 

Salienta-se ainda que este ano, as excelentes condições de produtibilidade hídrica e eólica permitiram que a exportação de eletricidade tenha atingido 4.2 TWh, um recorde absoluto para esta época do ano.

 

Tenho de referir que a possibilidade de realizar esta análise de forma tão imediata e precisa, só foi possível graças à informação compilada, tratada e disponibilizada em tempo real pelos serviços da REN. Por outras palavras devo salientar o duplo papel dos técnicos da REN, gerindo competentemente a rede nestas condições, novas e desafiantes e, simultaneamente, disponibilizando a informação do que ocorre em tempo real. Bem hajam!

 

Ainda vem longe o tempo em que teremos 365 dias consecutivos de eletricidade só renovável, mas o facto de já termos tido mais de 4 dias, decerto que vai ser brevemente suplantado por uma semana completa, depois por um mês, sendo um prenúncio de que o tempo dos 100%. já não vem longe, assim o empenho e a arte da engenharia e dos empresários portugueses sejam colocados ao dispor da inovação, ciência e vontade de vencermos barreiras, e contribuindo simultaneamente para um Portugal mais sustentável económica e ambientalmente, tendo sempre presente que:


Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.  

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , renováveis , energia , eletricidade
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