Colunista António Sá da Costa (Energia-Renováveis): Balanço das trocas de eletricidade com Espanha

11.07.2016

O ano de 2008 foi o primeiro ano completo de funcionamento do MIBEL e desde então, Portugal tem sido um importador líquido de eletricidade de Espanha. O saldo anual das trocas de eletricidade anual tem sido a importação pelo nosso País e tem variado entre 9.4 TWh em 2008, ou seja 18.6% do consumo do ano, e 0.9 TWh em 2014, 1.8% do consumo.

 

De referir que 2008 foi um ano seco, com o coeficiente de hidraulicidade de 0.56, o que justifica o valor elevado da importação. O ano de 2012 foi ainda mais seco, coef. hidraulicidade 0.47, mas nesse ano a importação foi menor, 7.9 TWh, 16.1% do consumo. A explicação desta diferença passa pelo aumento da eletricidade eólica, que em 2008 foi de 5.7 TWh, 11.3% do consumo, e em 2012 foi de 10.1 TWh, 20.4% do consumo.

 

Também de referir que 2014 foi um ano húmido, coef. hidraulicidade 1.27, com a eletricidade eólica representando 23.1% do consumo. Mas 2010 também tinha sido um ano húmido, coef. hidraulicidade 1.31, e neste ano a importação foi de 2.6 TWh, esta maior importação deve-se principalmente a dois fatores: o consumo mais elevado em 2010, 52.7 TWh versus 48.8 TWh em 2014, e a menor contribuição da eólica em 2010, 9.0 TWh versus 11.8 TWh em 2014.

 

Em termos financeiros e fazendo o cálculo de uma forma aproximada utilizando o valor médio de mercado do respetivo ano, posso referir que o sistema elétrico português pagou, pela importação, valores anuais que oscilam entre 600 M€ em 2008 e 40 M€ em 2014.

 

Analisando estes 8 anos pode constatar-se uma certa diminuição dos valores pagos pela importação, em que é importante a redução do preço no mercado spot devido ao crescente peso que a eletricidade renovável está a ter. Contudo esta tendência é alterada quando se está perante um ano muito seco ou muito húmido. Num ano muito seco a quantidade de eletricidade importada aumenta, pois diminui a produção nas centrais hídricas, e este facto implica também um aumento do preço unitário a pagar. No caso de um ano muito húmido dá-se o inverso, isto é, existe uma maior exportação de eletricidade e o seu custo unitário baixo.

 

Analisando o que se está passar este ano, que está a ser muito húmido coef. hidraulicidade 1.52, nos primeiros 6 meses o saldo é exportador em 4.1 TWh com uma valorização de 120 M€, desta vez a nosso favor. O ano que mais se aproxima destes valores foi o de 2014, mas nessa altura os números eram para o mesmo período 1.1 TWh e 46 M€.

 

Se a segunda metade deste ano for semelhante à de 2014, posso prever, e sendo conservador, que terminaremos o ano com o saldo exportador na ordem de 2 TWh com um valor da ordem de 70 M€.

Este facto acontecerá pela primeira vez desde a criação do MIBEL e, posso mesmo atrever-me a dizer, que deve ser mesmo uma das raras vezes que isto aconteceu na longa história das trocas com Espanha e, certamente, será o maior saldo de sempre a nosso favor, quer do ponto de vista de energia quer da sua valorização. É mais um registo notável a assinalar só possível graças ao resultado positivo da eletricidade renovável portuguesa, o que reforça a ideia de termos sempre presente que:


Portugal precisa da nossa energia.

 

António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , renováveis , importações , eletricidade
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