Colunista António Sá da Costa (Energia): Há 32 anos no setor das renováveis

09.03.2018

Há alturas em que devemos olhar um pouco para o nosso passado para perceber o rumo que estamos a levar e para onde queremos ir, tendo presente que muitas vezes o nosso rumo coincide com o das organizações que integramos. Vem isto a propósito de algo que se passou comigo há 32 anos, portanto em março de 1986.

 

Na altura era eu professor no Instituto Superior Técnico e tinha um gabinete de consultoria de engenharia hidráulica e recursos hídricos conjuntamente com outros colegas, quando fomos contactados pelo CEEETA para uma reunião. Não vou referir nomes, pois poderia esquecer algum injustamente.

 

O CEEETA – Centro de Estudos de Economia de Energia Transportes e Ambiente, tinha sido fundado no verão de 1985 por um grupo de 27 engenheiros e economistas que queriam olhar para o futuro nas áreas da Energia, Transportes e Ambiente sem deixar de se preocupar com a sustentabilidade das soluções analisadas.

 

O papel deste centro foi determinante para o que se veio a desenvolver nos anos seguintes, mais na área da Energia e do Ambiente. Posso dizer, sem qualquer interesse pessoal pois não integrava o grupo dos 27, que o trabalho feito pelos colaboradores do CEEETA foi de um alcance e de uma visão estratégica relevante, e acrescenta que a evolução da tecnologia e das questões do Ambiente, em especial tudo o que se refere à emissão de gases com efeito de estufa, vieram provar que aquelas pessoas estavam já certas naquilo que identificaram como temas relevantes para a sustentabilidade da sociedade no futuro.

 

Na referida reunião fomos desafiados a fazer uma análise de custos a nível de estudos de viabilidade de mini-hídricas, como se designavam na altura as pequenas centrais hídricas até 10MW. Os meus colegas e eu aceitámos o desafio e lá fizemos o melhor que sabíamos e, em meados de 1987, entregámos o relatório em que se englobavam situações de recuperação de centrais abandonadas e também casos de situações novas.

 

Muito posteriormente vim a saber que outros grupos abordaram outras tecnologias, como a solar fotovoltaica e a eólica. Do resultado dessas análises foi possível concluir que à data a tecnologia que estava suficientemente madura tecnicamente e que se poderia sustentar económica e financeiramente era a da pequena hidráulica.

 

Em resumo, foi há 32 anos com a reunião atrás citada que dei os primeiros passos no setor da eletricidade renovável e, o estudo que elaborei com os meus colegas ajudou a contribuir para o enquadramento da abertura do setor da produção elétrica a privados, e que veio a consubstanciar-se no Decreto-Lei 189/88 de 27 de maio, que foi a primeira etapa da abertura do setor a investidores privados, nessa altura apenas a centrais hidroelétricas até 10 MW.

 

Mal sabia eu que este estudo encomendado numa reunião que teve lugar há 32 anos, me marcaria tanto o resto da minha vida profissional, como estaria na base duma transformação muito grande no setor elétrico nacional. Ainda bem que foi assim e o presente reforça a visão de quem me contactou.

 

Na altura não tinha essa consciência, mas desde a viragem para este século, mais convicto e determinado estou na mensagem que:

 

Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

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