António Sá da Costa (Energia-Renováveis): Março de 2018 ficará na história da eletricidade de Portugal

09.04.2018

No passado mês de março em Portugal a produção de eletricidade renovável excedeu o consumo. De facto, a produção nacional renovável foi 103.6% do consumo com todas as consequências do facto de que saliento:

 

  • As centrais hídricas e eólicas foram responsáveis por 55 % e 42 % das necessidades de consumo, respetivamente;
  • Em termos diários a percentagem de renováveis em relação ao consumo registou um mínimo de 86 %, no dia 7 de março, e um máximo de 143 %, no dia 11 de março;
  • Ocorreu um período de 70 horas, com início às 12 horas no dia 9, em que o consumo foi totalmente assegurado por fontes renováveis e outro período de 69 horas, no início às 23 horas do dia 12, estes períodos foram separados por cerca de 10 horas em que as centrais fósseis apenas forneceram cerca de 2% do consumo;
  • Neste período foram evitadas 1,8 milhões de toneladas de emissões de CO2, o que se refletiu na poupança de 21 milhões de euros na aquisição de licenças de emissão;
  • Esta elevada penetração renovável teve uma influência positiva na redução do preço médio do mercado diário, que foi de 39,75 €/MWh, inferior ao de março de 2017 (43,94 €/MWh) quando as renováveis representaram 62 % do consumo;

 

O registo do mês passado é um exemplo do que se passará a verificar, cada vez mais frequentemente, no futuro. De facto, espera-se que até 2040 a produção de eletricidade renovável seja capaz de garantir, de forma custo eficaz, a totalidade do consumo anual de eletricidade de Portugal Continental. Contudo, será ainda necessário o recurso pontual a centrais a gás natural, para além do apoio crucial das interligações em ocasiões em que as renováveis não consigam satisfazer a totalidade do consumo. Também não se poderá menosprezar o papel crescente da eficiência energética e do armazenamento de eletricidade.

 

É, pois, fundamental que a políticas públicas nacionais e o quadro europeu designado por “Energia Limpa para Todos os Europeus”, que está atualmente em fase final de discussão, venham permitir a Portugal cumprir os seus objetivos de neutralidade carbónica em 2050, assegurando também uma forte expansão do uso da energia solar e garantir a descarbonização através da procura crescente de eletricidade no setor dos transportes e no setor do aquecimento e arrefecimento.

 

Não posso terminar esta mensagem sem referir a frase de Stephen Hawking, falecido no mês passado, e que devemos ter sempre presente nesta transição para as renováveis:


A inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança

 

Nós lutamos pela mudança, façamo-lo com inteligência, pois só assim estaremos numa frente vencedora, pois:


Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

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