Colunista António Sá da Costa (Energia-Renováveis): O balanço da eletricidade renovável em 2016

09.01.2017

Mais um ano se passou e, mais uma vez, aqui estou a fazer o balanço da eletricidade renovável do ano anterior. No entanto, antes de o fazer tenho, desta vez, de salientar dois acontecimentos muito importantes que tiveram lugar durante 2016.

 

O primeiro refere-se ao que se passou entre 7 e 11 de maio: durante 107 horas consecutivas, a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis excedeu o consumo dessa mesma eletricidade em Portugal continental. Esta notícia, que foi dada a conhecer ao público através dum comunicado conjunto da APREN e da ZERO, deu volta ao mundo e tem sido considerada como uma das mais relevantes de 2016.

 

Não menos importante foi o facto de, ao longo de 2016, a produção renovável ter excedido o consumo durante 1130 horas, ou seja, cerca de 47 dias - mais de mês e meio, mais de uma hora em cada 8, 12,9 % do tempo. É bom que isto se saiba e que se perceba de uma vez por todas que estamos paulatinamente a caminhar para que o consumo elétrico nacional seja totalmente garantido por fontes renováveis, o que, muito provavelmente, poderá ser atingido dentro de 20 a 25 anos.

 

Esta primeira mensagem de 2017 não fica completa sem referir a produção das centrais renováveis, que atingiram 32,2 TWh - o valor mais elevado de sempre, e que representou 64% do consumo. Torna-se assim evidente a posição de liderança das renováveis na produção de eletricidade no continente, facto que se vem verificando nos últimos 7 anos.

 

Deste valor, a eletricidade de origem hídrica representa a maior fatia, o que se deve fundamentalmente ao facto de 2016 ter sido um ano com uma produtividade hidráulica 33% acima da média, tendo a hídrica representado 32,7% do consumo.

 

A energia eólica teve a segunda maior contribuição no consumo com 24%, seguida da biomassa com 5,3%. A solar fotovoltaica teve uma contribuição de apenas 1,5%, o que ainda é baixo face ao seu potencial.

 

Também se considera relevante o facto de, este ano, o balanço com Espanha ter representado um saldo exportador de 5,1 TWh - ou seja, cerca de 10% do consumo. Recordo que desde 1970 apenas por seis vezes o saldo com Espanha foi exportador, e que o anterior valor máximo deste saldo (registado em 1998) tinha sido de pouco mais de 0,8 TWh, isto é, um sexto do agora verificado.

 

De salientar que, com o cenário verificado, as poupanças para Portugal induzidas pelas centrais renováveis em 2016 se cifraram em 890 milhões de euros na importação de combustíveis fósseis (gás natural e carvão) e 63 milhões de euros em licenças de emissão de CO2. Estes valores foram inferiores aos de 2015, dado o preço dos combustíveis fósseis, nomeadamente o gás natural, ter sido muito mais baixo que o verificado nos últimos anos, contudo, são valores a destacar.

 

Votos de um 2017 cheio de energia renovável, pois…

 

Portugal precisa da nossa energia.

 

António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , Energia , Renováveis , balanço , eletricidade , 2016
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