Colunista António Sá da Costa (Energia-Renováveis): Poupanças induzidas pela eletricidade renovável

17.04.2017

A Comissão Europeia lançou recentemente a proposta do novo pacote legislativo da energia da UE para o período 2020-2030, designado por “Clean Energy Package for all Europeans”, que está em apreciação pelo Parlamento e Conselho Europeus.

 

Trata‑se de um pacote de extrema importância não só para a UE mas também para cada um dos seus membros, pois dele dependerá a dinâmica do desenvolvimento industrial, o preço final da energia, a autonomia energética da Europa, enfim toda a economia e bem estar da população.

 

Não podemos, pois, ficar indiferentes a esta proposta.

 

Na esfera da energia o grande problema da Europa é a sua grande dependência dos combustíveis fósseis (83,6%), a grande maioria importados e que representam a diariamente cerca de 1000 milhões de euros. Isto torna a economia da UE muito dependente da volatilidade dos preços nos mercados de energia e coloca sérios riscos de segurança, para além da fragilidade política inerente à grande dependência do exterior.

 

O adequado desenvolvimento de energias endógenas e renováveis é um caminho incontornável para a Europa, posicionando‑se Portugal em situação privilegiada pois congrega características próprias que o tornam único e extremamente competitivo nesta área. Aliás Portugal já ganhou notoriedade internacional neste campo:

 

- Quando em 2014 foi classificado como o 3º país, a nível mundial, com melhores práticas ambientais e de sustentabilidade;

 

- Pela posição de liderança europeia na percentagem de incorporação de eletriicidade eólica;

 

- Quando entre 7 e 11 de maio esteve 107 horas consecutivas em que a produção elétrica renovável excedeu o consumo. Este acontecimento que foi notícia nos media de todo o mundo, teve especial destaque numa reportagem dedicada na CNN e levou a que o o jornal “The Guardian” classificasse este facto entre as dez mais importantes e significativas realizações técnicas do ano de 2016 na esfera da energia.

 

É, pois, nossa responsabilidade acrescida a de participar e promover um debate profundo e sério sobre este pacote “Clean Energy Package”.

 

Da minha parte, e sem entrar em grande detalhe, gostaria de partilhar um conjunto de ideias e de mensagens simples que esta proposta da Comissão me suscita:

 

- A meta indicada de 27% de renováveis para 2030 (vinculativa a nível da UE) é manifestamente insuficiente, pois a ser adotada representaria um abrandamento muito significativo face à trajetória a que estamos a assistir entre 2010 e 2020. Precisamos de uma meta de renováveis no consumo bruto final que se situe na gama entre 35% e 40%;

 

- As metas indicadas por cada País têm que ter um carater vinculativo, para permitir uma estabilidade mínima e previsibilidade na criação de valor na cadeia industrial (Investigação, fabrico, serviços, O&M, novos e mais eficientes centros electroprodutores, etc) e na atração do investimento.

 

- O mercado de carbono tem que ser revitalizado, atribuindo um justo valor aos efeitos positivos da descarbonização.

 

- O autoconsumo e da descentralização da produção têm que ser vistas como forma de desenvolvimento regional e de valorização de cooperativas e de iniciativas de cidadãos.

 

Portugal tem de continuar a manter a trajetória dos últimos 20 anos, pois é o único setor da nossa economia que ao longo destes anos tem sido objeto de grande apreço a nível internacional pela forma como temos liderado este setor, temos de continuar a atrair investidores, dando-lhes estabilidade regulatória e de políticas, pois com isso beneficia o País e cada um dos seus consumidores, pois: 


Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , energia , renováveis , pacote de inverno
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