Colunista convidada Ana Teixeira (Água): DAY ZERO - E se fosse Lisboa?

20.02.2018

As alterações climáticas estão aí! São incontornáveis. As sequências das estações do ano que todos aprendemos: Primavera, Verão, Outono, Inverno, são apenas uma lembrança do passado, em Janeiro tivemos temperaturas típicas de Primavera, a chuva persiste em não cair, veja-se o relatório de Janeiro relativo aos níveis nas albufeiras. Segundo os dados do SNIRH, no último dia do mês de Janeiro, das 60 albufeiras monitorizadas, 21 apresentavam disponibilidades inferiores a 40% do volume total. Os armazenamentos a Janeiro de 2018, por bacia hidrográfica, apresentam-se inferiores às médias de armazenamento do período compreendido entre Janeiro 1990/91 a 2016/17, exceto para a bacia do MONDEGO, dá que pensar! E se a chuva persistir em não cair? As disponibilidades hídricas vão continuar a diminuir, e como será no próximo Verão, ou seja, nos próximos meses de Junho, Julho, Agosto…… e no próximo ano, e no ano seguinte?

 

Longe vão os tempos, de cortes frequentes no abastecimento de água na região da grande Lisboa. Ainda mais longe vão os tempos da minha infância, numa aldeia da Beira-Baixa, quando ia com a minha avó, à fonte, buscar água que permanecia fresquinha na cantarinha de barro.

 

Portugal está a viver um período de seca. No final do mês de Dezembro, 58% do território estava classificado em seca severa, tendo sido o 9º mês consecutivo com valores de precipitação abaixo do normal.

 

A situação em CAPE TOWN tem sido notícia frequente nas primeiras páginas da imprensa internacional. As mais recentes restrições limitam os cidadãos a 50L de água, por dia, por pessoa, e quando o dia zero chegar, passarão a 25L/dia e nalguns locais, a pontos de distribuição de água guardados por forças policiais.


E se fosse em Lisboa?

 

Estamos preparados para viver uma situação destas? Não ter água nas torneiras 24h/dia, 365 dias/ano?

 

Estamos conscientes de que precisamos de começar a reduzir o nosso consumo de água? A água que não é utilizada permanece disponível. A água que se utiliza inicia uma 2ª fase do ciclo, drenagem, tratamento, descarga no meio recetor, nalguns casos reutilização.

 

Estamos conscientes que usamos água potável, para beber e confecionar alimentos, regar as plantas, lavar o carro, lavar pátios e terraços, encher a piscina, etc., etc…

 

Não percecionamos e não valorizamos, com justiça, o que é ter água com qualidade e em quantidade, sem qualquer restrição. Cada vez que abrimos uma torneira, nem sequer paramos 30 milésimos de segundo para pensar que a água que entra pelo ralo, mesmo que não a tenhamos utilizado, já não é potável e que a partir desse instante vai afluir aos sistemas de drenagem de água residuais e iniciar um processo de transporte e tratamento até poder ser rejeitada no meio recetor.

 

O direito à água (e saneamento) foi recentemente constituído um direito humano, mas esse direito não se extingue no presente, estende-se ao futuro e para que tal aconteça, os nossos hábitos têm que mudar, e começar a mudar já Hoje!

 

Essa mudança envolve-nos a todos, a cada um de nós, políticos, decisores, entidades gestoras, autarcas e cidadãos.

 

Estaremos nós preparados para dar à água o valor e a importância que realmente tem, aqui e agora? Eu, tu? Cada um de nós?

 

Ana Paula Teixeira é Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia (2000, IST). Em 2002 integrou os quadros da SimTejo - Saneamento Integrado do Tejo e Trancão, onde participou em vários projetos nas áreas de operação de sistemas de tratamento de águas residuais, planos de operação e manutenção, modelação de drenagem urbana, reutilização de águas residuais, otimização energética de sistemas de tratamento biológico, indicadores de desempenho-Past21. Cooperou com a ANEQP no desenvolvimento dos perfis profissionais e referencial de formação de operador e técnico de ETA/ETAR. Em 2015 integrou os quadros da AdLVT. Desenvolve atualmente atividade na Direção de Gestão de Ativos da EPAL – Departamento de Gestão de Perdas e Afluências indevidas. É presidente da SC2 da CT90*. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.


*A CT 90 é o órgão técnico que visa a elaboração de documentos normativos e a emissão de pareceres normativos no domínio dos sistemas urbanos de água, tendo sido criado em 1990 pelo IPQ. A subcomissão 2 (SC2) – Sistemas de águas residuais acompanha o trabalho desenvolvido no âmbito dos comités técnicos europeus com atividade relevante para os sistemas urbanos de água CEN/TC165).

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