Colunista convidado - Luís Capão: Porquê deixar o investimento em capital intelectual para depois?

09.09.2016

Os municípios precisam de investir em equipamentos elétricos para recolha e limpeza urbana ou de conhecer primeiro a sua capacidade operativa, tornando mais eficientes os serviços? A imagem utópica da aquisição de veículos elétricos, com emissões reduzidas de CO2, tem sido a principal abordagem do Governo à promoção da sustentabilidade ambiental das frotas de recolha de resíduos e limpeza nos municípios. Mas esta é uma abordagem redutora.

 

Na Cascais Ambiente associámos sistemas de informação às viaturas de recolha e transporte de resíduos. Assim se otimizaram os circuitos de recolha de resíduos, tendo em conta variáveis como toneladas médias, máximas ou mínimas, número e tipologia de contentores, tempos de deslocação para descarga, distâncias a percorrer, tempo disponível, recursos humanos existentes e capacidade dos camiões. Assim conseguimos poupar 180 000 quilómetros em 2015 (20 por cento!), com a redução dos custos de combustível e emissões associados.

 

Na gestão de uma frota, antes de se optar por qualquer investimento temos de perceber como funcionam realmente os serviços e para isso é necessário proceder à análise da eficiência da gestão dos serviços de resíduos urbanos, depois fazer a análise custo-benefício das soluções a adotar, e finalmente, promover a sustentabilidade dos serviços de gestão de resíduos, maximizando a eficiência dos sistemas (que têm de existir e dar informação) e das infraestruturas existentes.

 

A intenção do ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, de lançar em setembro um concurso para apoiar as autarquias na renovação da frota de veículos de recolha de resíduos, limpeza urbana ou serviços de água e saneamento com veículos elétricos peca pela falta de estratégia para o setor. Por um lado, quer reativar o programa nacional de mobilidade elétrica, por um outro quer descarbonizar a economia. Mas qual a melhor solução para o setor dos resíduos? Não parece ter havido sequer reflexão sobre o tema.

 

De acordo com o que foi anunciado para Portugal, aparentemente, qualquer autarquia poderá adquirir um veículo elétrico e vangloriar-se de “reduzir as suas emissões e adaptar-se às alterações climáticas”. Isto, sem primeiro traçar um plano para aproveitar melhor a capacidade dos recursos humanos e tornar mais eficientes os serviços. As opções tecnológicas têm de ser complementares de outras medidas. Na forma como foi apresentada, a medida anunciada pelo ministro é avulsa e arrisca-se a não ter efeitos a longo prazo, desperdiçando uma fatia de 10 milhões de euros do Fundo Ambiental.

 

Os municípios vão aproveitar, claro, mas o que sobrará daqui a 6/8 anos? E aqui levanta-se outra questão: haverá resposta do mercado nacional do lado da oferta? Visitámos este ano uma importante feira internacional de tecnologias para a área do ambiente e, de veículos elétricos para recolha de resíduos, não me lembro de ter visto nem um. O ministro, explicou entretanto, que se tratavam de varredouras, para as quais existem no mercado duas opções elétricas: varredouras de 1 e 2 m³. O custo ainda é muito elevado em comparação com as outras e ainda não existe histórico fiável em relação à qualidade da varredura e da autonomia e duração das baterias. Há ainda que considerar que as varredouras elétricas só podem trabalhar por um período de um turno, enquanto as mecânicas podem ser utilizadas em dois turnos de sete horas. Mais, os custos e as taxas ambientais da recolha de baterias usadas, farão desta solução bem mais onerosa com custos ainda não apresentados nem contabilizados na análise do investimento.

 

Não seria de enquadrar uma solução mais eficiente que trouxesse ganhos para os serviços, munícipes e para o setor? A nossa experiência diz-nos que a solução para a redução de emissões está na inovação, com recurso a sistemas de informação e aposta no capital intelectual. A nossa proposta? Em primeiro lugar, dotar os municípios de capacidade de análise e promoção de eficiência operativas, e depois sim, investir em frotas adequadas, onde os veículos elétricos, se os houver no mercado, terão primazia.

 

Luís Almeida Capão é gestor e administrador da Cascais Ambiente

TAGS: Luís Capão , Cascais Ambiente , resíduos , veículos elétricos
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