Colunista convidado Bernando Silva (Tecnologia): Como mantermos recordes em energias renováveis?

22.05.2018

Nos últimos anos, Portugal tem atingido recordes internacionais relativos à utilização de energias renováveis para a produção de energia elétrica. A produção foi, inclusivamente, assegurada por fontes renováveis durante 107 horas em maio de 2016. Já em 2018, o consumo foi inteiramente alimentado por fontes renováveis durante 69 horas consecutivas, entre os dias 9 e 12 de março e ainda, a nível energético, a geração de energia renovável foi superior ao consumo de energia elétrica em 3.6% durante o mesmo mês, em Portugal continental.

 

Estes feitos só foram possíveis graças à aposta previamente efetuada em fontes de energias renováveis, com especial ênfase na energia hídrica e eólica. A sinergia entre estas duas tecnologias tem promovido resultados energeticamente interessantes, pois a energia hídrica consegue operar como armazenamento através da utilização de bombagem, o que permite o aumento da integração de energia eólica e consequentemente a redução da dependência fóssil.

 

Todavia, uma central eólica difere em bastantes aspetos em relação a uma central hídrica, nomeadamente o tempo de vida útil do projeto/instalação. Enquanto uma central hídrica poderá ter uma vida útil de várias dezenas de anos, um parque eólico tem a vida útil típica que varia entre 20 a 25 anos. Se considerarmos que os investimentos feitos em energia eólica em Portugal começaram a ser significativos no início da década de 2000, em breve teremos alguns parques eólicos perto do limite da sua idade útil.  E… o que acontecerá depois?

 

Para já é uma incógnita. É certo que não voltaremos aos combustíveis fósseis. Contudo, para continuarmos a “bater recordes” através da consequente descarbonização da produção de energia elétrica, não podemos desinvestir nas energias renováveis e recorrer às tecnologias modernas para conseguirmos garantir uma maior penetração e aproveitamento energético renovável.

 

Relativamente à tecnologia eólica, uma das soluções poderá passar pelo reequipamento dos atuais parques eólicos que, perto da idade de “reforma”, poderão ser equipados com novos aerogeradores de maior potência e melhores características técnicas de integração com as redes elétricas. Em simultâneo, tem-se verificado um elevado número de pedidos de ligação de energia solar no Sul de Portugal e Espanha. Não obstante de reforços de rede que possam ser necessários para acomodar essas novas centrais, torna-se fulcral aumentarmos as nossas interligações de modo a escoar potência renovável em períodos de reduzido consumo e elevada produção. Em contraciclo, estas interligações permitirão também estabelecer trocas de energia em sentido oposto, aumentando a penetração de fontes renováveis em períodos de escassez de recursos locais. Para além das trocas de energias, as interligações vêm também aumentar a resiliência dos sistemas elétricos interligados através do aumento da capacidade de entreajuda entre as zonas interligadas aquando da ocorrência de perturbações.

 

Por fim, e para aproximarmo-nos de um cenário almejado de 100% de energia elétrica obtida através de fontes de energias renováveis, torna-se necessário efetuar também investimento em armazenamento de energia. Deste modo, a energia renovável produzida em excedente poderá ser armazenada para posterior consumo, preferencialmente em períodos de reduzida penetração de fontes renováveis. A nível de tecnologia, tem-se adotado a tecnologia de centrais hídricas reversíveis para um armazenamento de grandes quantidades de energia, a de gestão centralizada. Contudo, há ainda a oportunidade para a atuação no mercado empresarial e residencial com o armazenamento distribuído através da adoção de baterias acumuladoras.

 

As três soluções apresentadas, em conjunto, deverão ser capazes de garantir a manutenção e obtenção de novos recordes relativamente à integração e utilização de fontes de energia renováveis na produção de energia elétrica em Portugal.

 

Bernardo Silva, investigador sénior do Centro de Sistemas de Energia do INESC TEC, escreve este artigo de opinião a convite do Professor João Peças Lopes, que é desde fevereiro de 2017 o autor dos artigos de opinião da coluna "Energia-Tecnologia" no Ambiente Online. Bernardo Silva é mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), com especialização em sistemas de energia e doutor em Sistemas Sustentáveis de Energia pela FEUP/MIT Portugal desde 2014. É investigador do INESC TEC desde 2009 onde tem estado envolvido em projetos científicos e de consultoria na área de integração de fontes renováveis em sistemas elétricos. Tem como principais interesses o controlo e dinâmica de sistemas elétricos, tecnologias HVDC e FACTS, simulação de sistemas elétricos e simulação digital em tempo real.

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