Colunista Convidado Fernando Leite (Resíduos): Ainda o Fórum de Resíduos

07.05.2019

O 13º Fórum de Resíduos foi, em meu entender, inexplicavelmente dominado por dois assuntos que não deveriam monopolizar atenções, mas serem matérias normais de debate, os sistemas de gestão de resíduos de embalagem e a valorização energética de resíduos. Até parece que o PERSU 2020 cumpriu, em 2018, os seus objetivos para a gestão de resíduos e atingimos as metas que definimos para o nosso país. Por outro lado, e quanto ao valor de deposição de resíduos em aterro, até parece que os valores de cerca de 55 por cento atingidos em 2018, não são motivo de preocupação.

 

Para mim, que não sou um especialista em resíduos, sou um gestor de empresas com mais de 35 anos de trabalho no setor, a gestão e a concretização do PERSU 2020 e a questão da deposição de resíduos em aterro são as minhas emergências e preocupações que podem, ou não, recentrar o país num futuro mais sustentável quanto à gestão de resíduos sólidos.

 

Um especialista em resíduos, de quem apenas se conhecem teorias e opiniões e nunca, que se saiba, apresentou obra efetiva no setor, foi pródigo, durante o Fórum em “graçolas”, em habituais considerações e afirmações de quem nunca trabalhou ou geriu uma recolha de resíduos (seletiva ou indiferenciada), de quem nunca trabalhou ou geriu – com todos os desafios que tal origina – um Centro de Triagem, ou um TMB, já para não dizer uma Central de Valorização Energética, pois aqui, por sectarismo ou ideologia, nunca entrou, portanto, não sabe do que fala.

 

É importante, entretanto, recordar, que quem já defendeu a vermicompostagem como a resposta mais completa para a gestão dos nossos resíduos, quem foi dos mais acérrimos defensores dos TMB – que conduziram Portugal (e outros países) ao desempenho que conhecemos – e que rapidamente muda de opinião e de foco, não pode merecer qualquer crédito a quem dirige e trabalha efetivamente no setor. O país não precisa de quem saiba mais, mas sim de quem tenha feito melhor e o especialista, que se conheça, nada acrescentou ao setor nos últimos 15 ou 20 anos.

 

Para concluir e para esclarecimento de quem não assistiu a todas as sessões do Fórum, três últimas precisões:

 

  • Para a fração agora designada de RESTO e para a qual não haverá oportunidade de alguma reciclagem com a qualidade que a indústria exige, só resta a valorização energética numa primeira opção, com aproveitamento de energia e de sucatas várias, o aterro e a exportação dessa mesma fração RESTO e, sobre esta última opção, bastará conhecer o que acontece neste momento no Reino Unido e nos antigos países leste ou em Itália, nomeadamente quanto ao custo desta opção.

 

  • A valorização energética é uma energia renovável e tem sido justamente assim considerada numa importante fração. Quanto a emissões, é justo referir que o aterro emite o dobro das emissões de uma central de valorização energética e sobre isto o que diz o especialista?

     

     

  • Por último, resíduos  urbanos e Economia Circular, sendo que aquilo que foi afirmado é que a economia circular e o seu potencial para o setor da gestão de resíduos, não se cinge apenas ao setor dos resíduos urbanos, pois o maior potencial em quantidades e potencial de simbioses, está nos resíduos industriais, nos agrícolas, nos de construção e demolição, entre outros, e daí todo o trabalho que a LIPOR e um conjunto de outras 15 organizações estão a fazer para se criar uma Conta Satélite “Economia Circular”.

     

     

Despeço-me até ao 14º Fórum de Resíduos, com menos especialistas ou teóricos e mais fazedores.

 

Fernando Leite, Administrador-delegado da Lipor

 

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