Colunista convidado Francisco Cruz (Energia): Quão inteligente pode ser um poste de iluminação?

18.07.2019

Vivemos na era da urbanização. Nos últimos 10 anos, mais de metade da população mundial tem vivido em cidades. E este movimento das pessoas rumo às metrópoles não deve acabar tão cedo. Um dinamismo desta natureza enche as cidades de vida, mas também lhes apresenta alguns desafios – que podem ser escassez de habitação, infraestruturas no limite da capacidade ou falhas na distribuição de energia ou água.

 

Portugal tem vindo a discutir formas de mitigar estas ameaças à vida urbana e, na recente conferência Portugal Smart Cities Summit, concluiu-se que o desafio das cidades é cada vez mais a adaptação das tecnologias existentes à sua realidade e não o próprio desenvolvimento tecnológico, pois esse tem conseguido dar resposta às necessidades das zonas urbanas, por vezes a um ritmo até difícil de acompanhar.

 

Contudo, a integração destas tecnologias pode ser feita em estruturas já existentes, o que para além de ser menos oneroso, permite às cidades utilizar a sua base instalada de formas nunca antes pensadas. E aqui a rede de iluminação pública através dos seus postes assume um papel capital por ser uma base capaz, capilar e energizada. Em Portugal ainda existem barreiras regulatórias que não dão a flexibilidade necessária às autarquias para utilizarem esta rede de forma plena. Rede essa que também carece de ser renovada. Mas as alterações que se avizinham poderão colocar a gestão da rede de iluminação pública fora da rede de distribuição de energia e contribuir positivamente para esta evolução.

 

São várias as tecnologias com grande potencial para integrar nos postes de iluminação. Começo pelos equipamentos de disseminação da promissora rede 5G que implica uma distância curta entre antenas dada a sua elevada frequência de operação. Com a crescente pressão para se reduzir a poluição atmosférica e ruído, vejo também com grande interesse a colocação de sensores ambientais de baixo custo espalhados pela malha urbana que permitem identificar situações que poderão ser resolvidas à escala da cidade.

 

Também são interessantes todas as tecnologias de deteção de atividade sísmica, inundações ou botões SOS pois as mesmas permitirão reduzir o impacto de emergências. Porém, as tecnologias mais promissoras para os próximos anos são as aplicações suportadas em analítica de vídeo e a comunicação veículo-infraestrutura (V2I). A primeira embora exija a instalação massiva de câmaras de vídeo, permitirá aumentar a segurança, informar melhor os cidadãos e aprimorar a reatividade das autarquias face à dinâmica do espaço urbano. A segunda permitirá dar um passo significativo em direção à condução autónoma, algo onde Portugal já está a dar os primeiros passos com diversos pilotos a serem instalados brevemente em Lisboa e no Porto.

 

Para além disso, os postes, que passariam a ser inteligentes, teriam também de ser remotamente controlados e integrados. Deixou de ser aceite que um novo sistema não seja passível de ser analisado à distância e todos os equipamentos nos postes deverão manter válida esta premissa: total conectividade e controlo remoto. Porém, não existem ainda muitos projetos com estas características. Provavelmente isto deve-se ao surgimento de inúmeros players que desenvolvem soluções que dão resposta apenas a uma área da cidade, e cujos projetos não passam, muitas vezes, de pilotos ou provas de conceito. Por outro lado, algumas cidades optaram por investir numa plataforma agregadora sem ainda possuir qualquer dado que a alimente. Em geral, estas plataformas são dispendiosas e, só por si, não oferecem qualquer vantagem à cidade. A estratégia correta passa por compreender as necessidades de cada área da cidade de uma forma completa – equipamentos e plataforma – e assegurar que esta centralização é depois passível de ser agregada numa central. Só assim é que as cidades vão ser os lugares vibrantes, seguros e eficientes em que sonhamos viver.

 

Francisco Cruz, Business Development na Intelligent Traffic Systems da Siemens

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