Colunista convidado Paulo Preto dos Santos (Energia): Como ultrapassar as limitações do vento e do sol

18.07.2018

A agência financeira BoombergNEF publicou recentemente o seu relatório anual de análise económica de longo prazo para o sector elétrico e das energias renováveis, o New Energy Outlook 2018.

 

Datado do segundo trimestre de 2018, destaco um excerto (traduzido) do mesmo:

“As energias renováveis baratas e a explosão da capacidade da armazenagem em baterias são más notícias para a maioria dos geradores térmicos, mas nem todos.


À medida que as centrais térmicas são desativadas e as energias renováveis intermitentes aumentam a variabilidade do lado da oferta, novas capacidades flexíveis serão necessárias, mas há limites para o que as energias renováveis e as baterias podem fazer juntas.

O “peak-shaving” (a geração nas pontas da curva do consumo) com recurso ao gás natural apresenta-se como a tecnologia crítica, para apoiar as energias renováveis durante os picos de consumo quando as origens intermitentes, vento e sol, se conjugam em mínimos (às vezes isso pode durar até três semanas).


Assim se prevê que o “peak-shaving” com gás (seja através de turbinas a gás em ciclo aberto, seja com recurso a motores alternativos de combustão interna a gás natural cresça quase quatro vezes em 2050, como alternativa mais ágil e mais barata às centrais com turbinas a gás em ciclo combinado (as CCGT) de grande escala e às centrais a carvão que, inevitavelmente funcionarão com fatores de capacidade/utilização cada vez mais baixos.”


Em Abril de 2015, o jornal Água&Ambiente publicou um artigo de opinião meu intitulado "Os sistemas de geração elétrica do futuro" do qual, permitam-me destacar a seguinte passagem:

Os sistemas de geração elétrica do futuro terão elevados níveis de incorporação de fontes renováveis que induzirão níveis de imprevisibilidade e intermitência também elevados. Por isso serão complementados com parques de geração térmica fóssil que sejam capazes de mitigar os riscos que decorem de elevadas incorporações de fontes renováveis imprevisíveis e intermitentes. À luz das atuais tecnologias, nenhuma responde melhor aos requisitos acima mencionados, do que a dos mais recentes motores alternativos de combustão interna a gás natural. Fabricam-se atualmente motores de combustão interna até 20 a 22 MW, com eficiências que já atingem, ou mesmo ultrapassam, os 49% (em ciclo simples), que atingem a sua potência máxima em menos de 60 segundos (alguns em menos de 30 segundos), permitem a modularidade das centrais sem perca de eficiência nas cargas parciais, não têm limitações técnicas e de durabilidade quanto ao elevado número de paragens e arranques, a sua eficiência quase nada depende da temperatura atmosférica, permitem tempos de construção das centrais muito mais curtos e custos de investimento por MW mais reduzidos.


Dir-se-ia que me adiantei na visão, 3 anos antes. Não, não detenho nenhuma capacidade excecional. A engenharia mecânica ajudou-me bastante, mas o mais importante foi ter profissionalmente percorrido o setor energético, diria, de fio-a-pavio: comecei percorrendo quase todo o país industrial, de sector a sector, de fábrica a fábrica, convertendo todo o tipo de processos energéticos térmicos comercializando gás e destilados de petróleo pela multinacional Shell, passando depois pelo sector empresarial (na altura ainda público) do gás natural e do Gas-to-Power, ao qual se seguiu uma startup do grupo Semapa nas energias renováveis e do Biomass-to-Power, percurso ao qual se juntou a consultoria de política energética para governos africanos.

 

A energia não é só energia elétrica, como alguns pregoeiros querem continuar a fazer passar essa ideia. A energia elétrica representa apenas 15% a 25% da energia que atualmente um país industrializado e desenvolvido consome. E tanto pregam obstinadamente, quais paladinos gabarolas das grandes metas das energias renováveis, que nelas se iludem, ou com elas querem iludir.

 

A Bloomberg di-lo, e di-lo bem, que haverá limites para o que as energias renováveis e as baterias podem fazer juntas, mesmo com a redução brutal dos custos dos painéis solares e das baterias a que já assistimos e vamos ainda continuar a assistir.

 

Portugal, tal como outros países europeus, não tem o seu parque de produção elétrica convencional preparado para estes novos paradigmas. O carvão já tem os seus dias contados e as CCGT não vão responder às necessidades de “peak-shaving” de modo eficiente pois, irão operar em ciclo aberto de modo energeticamente ineficiente (não mais do que a 42% de eficiência). Se juntarmos a este facto o enorme fardo que carregamos que são os famosos CMECs, CAEs e CIEGs do tão falado “monstro elétrico”, então ainda estamos bem pior que esses outros países.

 

Portugal precisa, não da nossa (da deles) energia, mas sim da energia de todos!

 

Paulo Preto dos Santos é Engenheiro Mecânico pelo Instituto Superior Técnico e tem uma graduação em Alta Direcção de Empresas, pela AESE/IESE Business School em Economics. É Director Comercial da Winpower, SA, e Secretário-Geral da APEB – Associação dos Produtores de Energia e Biomassa. Foi Director Geral da SOBIOEN, CEO da TRANSGÁS ENERGIA, Diretor de Marketing da TRANSGÁS, Adjunto do CA da LISBOAGÁS e Gestor na SHELL PORTUGUESA. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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