Colunista convidado Paulo Preto dos Santos: Por que arde a floresta em Portugal?

26.06.2017

O nosso território é muitas vezes associado, no que diz respeito à caracterização endafoclimática da sua floresta, como uma floresta mediterrânica, cujas características definidas através de fatores do meio tais como o clima, o relevo, a temperatura, a humidade do ar, a radiação, o vento, o tipo de solo, a precipitação pluvial e a composição atmosférica, têm uma conjugação quase única no nosso país.

 

Nesta semana fatídica, na qual morreram 64 pessoas, muito se disse, discutiu e esgrimiu na comunicação social. Quase tudo sem qualquer nexo de casualidade. Vieram, mais uma vez os ditos amigos do ambiente, vomitar chamas contra o eucalipto (como se uma mata de pinheiro bravo não ardesse de igual forma), aparecerem logo os defensores de mais meios aéreos, voltaram os engenheiros florestais a defender recursos colossais em equipas de sapadores florestais, etc. etc.

 

Ouvi constatações óbvias como aquela em que refere que mais de 50% da área ardida na floresta da UE é em Portugal (como isso fosse algo que não fosse lógico), ouvi comparar a nossa floresta com toda a demais mediterrânica e, em duas palavras: pede-se mais dinheiro para a floresta! Muito dinheiro! Da UE, do OE, não interessa, mais dinheiro para… meditemos, para apoiar interesses. Como não já tivessem muitas centenas ou mesmo milhares de milhões de euros sido atirados para a floresta, com o resultado que conhecemos: o único país da UE que, de ano para ano perde área florestal.

 

Perde pois, de ano para ano, o seu riquíssimo potencial energético renovável, a biomassa, esta a que mais contribui (de longe mais do que toda a eólica, hídrica e solar juntas) para que o nosso país consiga chegar a 27% de contribuição renovável no seu consumo final de energia.

 

A nossa floresta não é 100% mediterrânica: resulta sim, de uma conjugação (quase única) de um território do sul da Europa (e por isso quente no verão e sem o frio do norte europeu no inverno), mas também de um território banhado pelo Atlântico que traz humidade e não permite que as temperaturas desçam no inverno. Como tal, as espécies florestais desenvolvem-se muito no inverno (nos climas frios hibernam) e geram uma vasta riqueza que é a biomassa. Veja-se que em Espanha, cerca de 50% da sua floresta está localizada na Galiza e não na sua costa mediterrânica. O Atlântico traz também vento, muito vento, que ajuda na dimensão colossal dos fogos.

 

Por que está abandonada! Porque não tem valor!

 

Assim, muito rica em coberto vegetal, os tais matos, a tal biomassa, a floresta arde porque estão presentes todas as condições endafoclimáticas para que tal aconteça. Mas, fundamentalmente, a floresta portuguesa arde porque está abandonada! E por que é que está abandonada? Por que é que arde muito mais hoje que nos tempos dos nossos avós?

 

Respondo, sem qualquer dúvida: por causa da “botija do gás”! A floresta está abandonada porque o produto florestal deixou de ter valor! Também acontece isso pela migração das populações para as cidades.

 

Sim, por causa da “botija do gás”, essa energia (o GPL) que contrariamente ao que muita gente pensa, representa mais do dobro da energia consumida pelas famílias relativamente ao gás natural, alimenta hoje 2/3 das habitações portuguesas.

 

Quando a geração dos nossos avós/pais começou a substituir os fogões a lenha pelos fogões a GPL então, todo aquela matéria vegetal, os tais matos, a tal biomassa, deixou de ter procura, deixou de ter valor! Sem valor fica nos solos. Sem valor, a limpeza das florestas é um enorme encargo, sem retorno em tempo algum. Nos solos fica, nos solos arde, ardendo depois toda a árvore, toda a floresta.

 

E é necessário igualmente dizê-lo, a rolaria de madeira não tem o valor necessário para sustentar a floresta. Quando apenas dois grupos empresariais compram a madeira para a produção de pasta de papel, que ao mesmo tempo a importam do exterior para a fazer baixar ainda mais de preço (as importações são livres); quando o grupo empresarial SONAE, que nunca investiu na floresta, reclama por madeira ainda mais barata; quando as exportações de pinho foram administrativamente declaradas proibidas de todo o território nacional (pela expansão do nemátodo por todo o território nacional de forma calculadamente propositada para esse fim); ficam então os proprietários privados da floresta portuguesa (que são 98% da floresta nacional), totalmente indefesos e, como tal, abandonam as suas propriedades.

 

Que ninguém pense, e sobretudo que nenhum político ou deputado pense que, com apenas legislação que obrigue às limpezas florestais se vai conseguir que essa limpeza aconteça. A limpeza florestal tem custos colossais. É impraticável, impossível mesmo, se não se implementar uma cadeia-de-valor, leia-se custos versus receitas, euros versus euros. Enquanto a floresta for apenas vista como uma “valia ambiental”, ela vai continuar a arder.


Uma nova floresta – um ativo económico, uma matéria-prima

 

A floresta tem que voltar a ser gerida como um ativo económico, fonte de recursos energéticos, e de outras matérias-primas, numa larguíssima escala territorial, como era nas gerações anteriores à revolução energética de origem fóssil, como ainda faziam os nossos avós.

 

Não quero com isto dizer que temos de voltar às cozinhas a lenha. Mas hoje há uma forma de o fazer com toda a modernidade, como o fazem a Suécia, a Dinamarca, a Áustria, a Alemanha, a Finlândia e até o Brasil. E todos eles sem o clima propicio aos fogos. E mesmo a Itália já o vem fazendo.

 

A linguagem nos gabinetes dos ministérios tem que mudar. Basta de falar apenas em árvores, em toiças, em infestantes, em eucaliptos, em valor ambiental, em suma, em pura teoria académica. É necessário começar a falar em VALOR, em EUROS, em conta-cultura!

 

Em 17/10/2012, eu próprio disse tudo isto na Audição Parlamentar Nº 1-GT-B-XII http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudicao.aspx?BID=93717 perante alguns deputados. Em várias reuniões parlamentares, eu nunca ouvi as palavras Valor, Euros. Entretanto passaram quase 5 anos e… nada!

 

Sou um engenheiro mecânico (dedicado à produção de energia). Não sou florestal. Mas quis o meu destino profissional que eu juntasse a experiência em energia ao tema da floresta. E aprendi muito com os meus colegas florestais (eu pensava que uma palmeira era uma árvore, até que me disseram que não). Mas há que colocar a floresta a ser igualmente pensada por engenheiros mecânicos, químicos, de materiais e por engenheiros de gestão industrial que juntam o racional financeiro ao racional industrial.

 

Portugal necessita de voltar a colocar a sua floresta ao serviço da economia! Como faziam os nossos avós. Mas agora de uma forma diferente. Não com fogões domésticos a lenha mas com grandes fornalhas que transformem os matos, a biomassa, novamente em energia. Essas fornalhas seriam as caldeiras de vapor de inúmeras pequenas centrais a biomassa para produção de energia elétrica.

 

Portugal necessita, eu diria, de umas 50 centrais de 3MWe cada. Maiores não. Distanciadas entre si, nos perímetros florestais em cerca de 40 km. Não mais. A biomassa não pode “viajar mais de 25 km” sem que fique demasiado cara. As centrais de 3 MWe são efetivamente mais caras (3 a 4 M€/MW) e com menos eficiência (22 a 25%). A remuneração dessas centrais seria à volta de 200 €/MWhe (como acontece em Itália). Mas só poderiam utilizar os matos, os sobrantes da exploração florestal, resíduos agrícolas, espécies infestantes, cepos, e materiais de faxina. A fiscalização desse cumprimento seria muito rigorosa e muito fácil de verificar (com penalidades fortíssimas por incumprimento).

 

Cada central consumiria, anualmente, cerca de 31.000 toneladas destes materiais da limpeza florestal, a serem colhidos num raio de cerca de 25 km em torno de cada. Isso permitiria que a central pudesse pagar cerca de 60€/ton por esse material (e só por esse material). Em contrapartida pela proteção da rolaria de madeira, as indústrias celuloses e da ITM, bem como as grandes empresas de produção de energia elétrica, estariam proibidas de participarem na atividade de exploração destas centrais.

 

Com esse valor o proprietário florestal já tem rendimento suficiente. Os proprietários assim não iriam deixar que esse valor lhes fugisse do seu rendimento. Voltariam à floresta. Quem não o fizesse estaria sujeito a que a autoridade administrativa local o fizesse e ficaria esta com a receita dessa colheita. Com estas 50 centrais limpar-se-iam anualmente cerca de 1,6 milhões de toneladas de todos estes materiais. E criar-se-iam, provavelmente, mais de 7.500 postos de trabalho diretos e indiretos.

 

O extra-custo da injeção da energia elétrica assim remunerada, no Sistema Elétrico Nacional, por estas 50 centrais funcionando cerca de 6000 horas por ano, seria cerca de 120 M€/ano, contando que o valor médio atual do mercado elétrico está por volta de 65 €/MWhe. É um extra custo baixíssimo quando comparado com os custos anuais no combate e prevenção de incêndios e igualmente baixíssimo quando comparados com o extra-custo que se paga anualmente aos produtores de energia de parques eólicos, sem que estes tenham contribuição proporcional relevante para a criação de riqueza e emprego no interior do país.

 

Paulo Preto dos Santos é Engenheiro Mecânico pelo Instituto Superior Técnico e tem uma graduação em Alta Direcção de Empresas, pela AESE/IESE Business School em Economics. É Director Comercial da Winpower, SA, e Secretário-Geral da APEB – Associação dos Produtores de Energia e Biomassa. Foi Director Geral da SOBIOEN, CEO da TRANSGÁS ENERGIA, Diretor de Marketing da TRANSGÁS, Adjunto do CA da LISBOAGÁS e Gestor na SHELL PORTUGUESA. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: energia , biomassa , incêndios
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