Colunista convidado Ricardo Bessa (Energia-Tecnologia): Inteligência Artificial e o Setor da Energia

19.03.2018

Recentemente tem-se observado um crescente interesse de diferentes setores da economia (agricultura, media, saúde, etc.) na inteligência artificial (IA), motivados por uma expectativa de melhoria na eficiência operacional e impacto positivo no negócio. O ressurgimento da IA deve-se em grande parte a empresas como a Google DeepMind, com a performance “super-humana” da tecnologia AlphaGo no jogo de Go, a tecnologia de acesso livre da OpenAI associada a Elon Musk (CEO da Tesla Motors) ou a IBM com a plataforma Watson de serviços cognitivos. Os casos de sucesso da JPMorgan e Uber com a integração de IA nos respetivos modelos de negócio, com a finalidade de automatizar processos, contribuem para adornar o atual frenesim.

 

No setor da energia existem vários casos de uso para IA. A título exemplificativo, compra ou venda de eletricidade, operação de sistemas e redes elétricas de energia, otimização do consumo e produção de energia elétrica, serviços de apoio ao cliente. No entanto, é importante definir um conjunto de princípios de forma a maximizar os benefícios e facilitar a adoção da tecnologia.

 

Em primeiro lugar, é fundamental integrar conhecimento de domínio e operacional do setor. O objetivo da tecnologia IA não deve ser substituir os operadores humanos, mas sim fornecer ferramentas avançadas de apoio à decisão com o objetivo de mitigar os vieses cognitivos do ser humano. É particularmente adequada para problemas onde os operadores humanos não conseguem processar toda a informação e a memória sobre ações passadas é fundamental, ou situações onde as decisões têm que ser tomadas num curto espaço de tempo, e.g. operação do sistema elétrico em situações climatéricas adversas ou análise do mercado de eletricidade. Por fim, a distinção entre IA e a “simples” extração de conhecimento de dados é essencial. IA requer que toda a cadeia de valor seja endereçada, onde o apoio à decisão e prescrição de soluções deve ser considerado e eventualmente automatizado. 

 

No projeto Europeu InteGrid, o INESC TEC, em conjunto com a EDP Distribuição e Águas do Tejo Atlântico, encontra-se a desenvolver casos de uso para IA na otimização de processos industriais com consumo intensivo de energia elétrica e a identificar o potencial de aplicação nas redes elétricas inteligentes. Um dos objetivos do projeto é realizar análises custo-benefício, de replicabilidade e escalabilidade, avaliando soluções tradicionais e aplicação de técnicas de IA.

 

Neste sentido, o Sistema Científico e Tecnológico Nacional, com competências nas ciências fundamentais (matemática, estatística, álgebra, etc.), é o ecossistema ideal para a criação de avanços científicos e tecnológicos em conjunto com iniciativa privada da indústria Portuguesa. Só desta forma, países improváveis como a Estónia, estão no grupo da frente para a próxima revolução industrial.
 

Ricardo Bessa escreve este artigo de opinião a convite do Professor João Peças Lopes, que é desde fevereiro de 2017 o autor dos artigos de opinião da coluna "Energia-Tecnologia" no Ambiente Online. Ricardo Bessa é licenciado em Engenharia Eletrotécnica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, mestre em Análise de Dados e Sistemas de Apoio à Decisão pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto e doutorado em Sistemas Sustentáveis de Energia pela FEUP. É Investigador Sénior no INESC TEC desde 2006 no Centro de Sistemas de Energia. Foi investigador em diversos projetos relacionados com previsão eólica e sua integração na gestão do sistema elétrico de energia. Tem participado ativamente em projetos relacionados com redes elétricas inteligentes, nomeadamente os Projetos Europeus FP7 SusTAINABLE e evolvDSO e os projetos Horizonte 2020 UPGRID e InteGrid, de que é coordenador técnico. 

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