Colunista convidado Hernâni Theias (Água): O dia do Apocalipse

01.10.2019

O dia do Apocalipse

 

Sobre planificação estratégica de investimento e o custo da inação

 

A expansão das redes de água conheceu o seu auge nas décadas de 50 e 60, tanto na Europa como na América do Norte, criando aquilo que hoje tomamos como garantido, a universalização do abastecimento de água potável e do saneamento.

 

Com o passar do tempo, as redes foram envelhecendo e estão a chegar perigosamente perto do fim da sua vida útil. Por outro lado, as taxas de renovação têm sido insuficientes para compensar a deterioração dos ativos. A ERSAR estabelece como “boa” uma taxa de renovação entre 1% e 4%. No último relatório anual publicado em 2018, a média nacional andava perto de 0,6% para água potável (0,3% no caso das redes de saneamento), o que supõe uma duração de vida das canalizações de 170 anos. E estes indicadores têm vindo a baixar de forma consistente ao longo dos últimos anos.

 

Apenas 9% dos alojamentos estão abrangidos por uma rede de saneamento cuja taxa de renovação é considerada satisfatória. Segundo o Grupo de Apoio à Gestão do PENSAAR “(...) Terá de se fazer com urgência um diagnóstico sobre as causas da falta de reabilitação e renovação de condutas e coletores (...)”, afirmação subscrita pela ERSAR.

 

No resto do mundo, a situação não é diferente. Segunda a US-EPA a despesa anual em operação e manutenção de infraestruturas de água nos EUA representa o dobro do CAPEX.

 

A tal ponto que se tornou um lugar comum em encontros internacionais dedicados à gestão de ativos falar na aproximação do dia do Apocalipse.

 

As entidades gestoras dispõem de ativos muitas vezes já amortizados nas contas, mas funcionais --até certo ponto. Logo a tendência é mesmo adiar o investimento o mais possível (estratégia de “run to failure”); no mundo da gestão vence o adágio “não resolvas hoje aquilo que podes deixar para amanhã”.

 

Intuitivamente errado, isto acontece porque os gestores, frequentemente, não têm presente a totalidade dos custos que acarreta a degradação das suas redes, o custo da inação.

 

Em primeiro lugar, poucos operadores têm em conta o famoso tripé da sustentabilidade. Qualquer atividade tem custos e benefícios não só no plano financeiro, mas também social e ambiental. Se olharmos só para os custos diretos renovar a rede não faz sentido do ponto de vista financeiro. Em contrapartida, aceitar perdas físicas anuais de 200 milhões de m3 é, do ponto de vista ambiental, inaceitável. Também o são os riscos a que ficam expostas as populações em caso de colapso de infraestruturas.

 

Em segundo lugar, os riscos não materializados nunca são contemplados: danos a terceiros, incluindo imateriais, intervenções de emergência nas redes e multas.


Em terceiro lugar, no processo decisório, nunca é contabilizado o impacto no valor da reputação, considerado um ativo intangível, mas com repercussões financeiras muito palpáveis (morosidade, recursos dos clientes na justiça, classificação de grau de investimento, perda de poder negocial com os reguladores e, para empresas cotadas, valor de capitalização na bolsa).

 

Obviamente, poderíamos olhar para o reverso da medalha e perguntar-nos até que ponto as tarifas refletem estes gastos ocultos, mas o debate é outro e tem que ver com a distribuição social dos encargos associados aos serviços. Também poderíamos encerrar a discussão com mais um choradinho pela evidente falta de investimento em infraestrutura básica, conclusão que não levaria a lado nenhum.

 

O investimento preventivo em renovação de redes é rentável e pode não decorrer unicamente de pressões regulatórias, sempre e quando se cumpram duas condições.

 

A primeira, em linha com o exposto anteriormente, consiste em integrar na análise financeira os riscos de longo prazo devidamente monetizados, evitando assim subavaliar os custos da inação.

 

A segunda, e isto é crucial para uma política de renovação de sucesso, radica na alocação óptima dos fundos disponíveis, procurando maximizar o retorno de cada euro comprometido.

 

Investir “com inteligência” é uma tarefa complexa. Requer distribuir o escasso investimento por centenas, às vezes milhares de quilómetros de redes, tendo em conta as numerosas opções construtivas, cenários de funcionamento e igualmente um largo abanico de soluções não estruturais. Ser capaz ainda de extrair todo o valor da profusão de dados associados às redes de
abastecimento, em ocasiões errados, incoerentes ou ausentes e frequentemente coexistindo em silos herméticos.


Finalmente, requer uma mudança de paradigma: tirar do âmbito do mero cumprimento burocrático os planos estratégicos de investimento e transformá-los em instrumentos vivos e em meios de interação.

 

Ainda estamos a tempo de evitar o apocalipse.

 

Hernâni Theias é engenheiro civil de formação e está dedicado desde sempre à área da água e saneamento. Colabora em projetos em quatro continentes. Atualmente é director de desenvolvimento de negócios na Suez e é responsável pela divisão global de serviços para redes.

VOLTAR