Colunista Filipe Vasconcelos (Energia - Tecnologia): O futuro vem em formato de bateria

09.12.2015

Um estudo recente indica que na pirâmide Mazlov de hierarquia das necessidades do ser humano, o nível mais básico – o fisiológico ligado a necessidades básicas como a respiração, a alimentação e a água – tem vindo a ser suplantado por uma necessidade ainda mais premente: a bateria do telemóvel. De facto, estamos cada vez mais conectados e a sofrer potencialmente com a ansiedade de falta de carga, pois as baterias que usamos são pesadas, caras e têm relativamente pouca autonomia.

 

É aqui que entra a inovação. As empresas de tecnologia e fabricantes de automóveis, em particular, estão a empenhar-se fortemente no desenvolvimento de novas baterias. Diversas tecnologias perfilam-se como boas apostas para o futuro, estando umas mais perto da realidade de comercialização, outras ainda com um caminho de desenvolvimento por percorrer. São exemplos disso as baterias de alumínio-ar, que têm 40 vezes a capacidade das atuais de lítio, baterias de alumínio-grafite que carregam um telemóvel num 1 minuto ou baterias 3D de espuma de cobre.

 

As empresas elétricas também estão atentas a este desenvolvimento. Com taxas de penetração cada vez maiores de renováveis, importa garantir a estabilidade da rede e disponibilidade face à intermitência, onde o papel das baterias não é despiciente. Prova disso são os investimentos que a unidade de Investigação e Desenvolvimento da REN – a NESTER – está a fazer em armazenamento de energia em redes de transporte.

 

A democratização da produção descentralizada com o autoconsumo por painéis fotovoltaicos, associada a uma crescente penetração do veículo elétrico, virá transformar a forma como interagimos e usamos a energia. No futuro poderemos carregar a bateria do nosso automóvel elétrico com painéis fotovoltaicos, conduzir umas centenas de quilómetros até uma casa de fim de semana e usar essa mesma bateria para nos fornecer energia em casa e regressar no domingo, tudo isto sem estar ligado à rede elétrica. Isto não vai acontecer já mas não faltará muito tempo.

 

Para além desta entusiasmante possibilidade de autonomia, o futuro apresenta novas oportunidades de negócio, como por exemplo a agregação de sistemas em que os agentes podem vender painéis fotovoltaicos associados a baterias e carros elétricos tudo num só pacote e a gestão integrada dos carregamentos elétricos. O futuro terá clientes cada vez mais desconectados de uma rede elétrica física, mais independentes e autónomos, estes novos clientes vão gerar e armazenar energia renovável como entendem e usa-la onde entendem. Será uma nova revolução na forma como se constroem e se gerem as redes de energia do futuro.

 

Provocação do mês: As redes de distribuição foram pensadas e construídas para todos os clientes estarem conectados a uma rede de distribuição. Todos os investimentos efectuados em linhas, transformadores e subestações devem assegurar o máximo de consumo, de modo a garantir a  segurança do abastecimento. Num contexto em que teremos cada vez mais clientes autónomos da rede de distribuição, novas micro redes privadas e ilhas elétricas, como deverá a regulação integrar esta nova realidade sem onerar os restantes clientes e sem colocar em causa a sustentabilidade dos operadores.

 

Filipe Morais Vasconcelos, engenheiro mecânico pela Universidade Nova de Lisboa, Pós-graduado pela Université Paris X e MBA pela London Business School é desde 2015 Managing Partner da S317 Consulting. Foi Administrador da YAP_ON Sustainable Solutions entre (2014-2015), Diretor-Geral da Adene (2012-2014), Assessor do Secretário de Estado da Energia no XIX Governo Constitucional (2011-2012), Consultor Sénior no grupo EDP (2004–2011) e Consultor na Accenture (2001–2003). O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Filipe Vasconcelos , energia , tecnologias
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