Colunista Filipe Vasconcelos (Energia - Tecnologia): Paris D+1

11.01.2016

O acordo climático de Paris alcançado no passado mês vem potenciar as tecnologias limpas (as chamadas “cleantech”) e a inovação. Prova disso mesmo é o compromisso anunciado na 21ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP21) de financiamento dos países em desenvolvimento em 100 mil milhões de dólares por ano até 2020. Com este financiamento pretende-se acelerar adoção de energias limpas com o objetivo de as tornar amplamente acessíveis e comercialmente viáveis nestes países.

 

É, sem dúvida, uma excelente notícia. Agora, começa a parte mais difícil e o desafio de garantir que a sua implementação acontece mesmo.

 

A inovação é essencial para apoiar estes países a superar o desafio da descarbonização das suas economias, mas muitas vezes as soluções tecnológicas até já existem e estão relativamente maduras. O que falta é garantir que existe também uma estrutura institucional e de mercado que garanta que este financiamento é bem canalizado para o bem público.

 

Importa assim, para além da inovação, apoiar também o reforço das instituições de governo (através de, por exemplo, reguladores sectoriais independentes) que protejam os consumidores e a própria sustentabilidade dos sectores. Uma componente institucional forte, permite apoiar a viabilidade económica dos investidores, através da remuneração adequada dos capitais investidos e garantir condições de igualdade e transparência no acesso à atividade e no respetivo exercício, bem como nas relações contratuais.

 

Importa também desde logo apostar também na capacitação de todos os agentes do setor: decisores políticos, reguladores, agentes de mercado e consumidores. Uma maior capacitação tem, entre outras vantagens, a de reduzir a assimetria de informação entre agentes permitindo mercados mais equilibrados e uma maior geração global de riqueza na economia.

 

Importa por fim, procurar garantir a viabilidade real dos projetos através da eliminação tendencial de subsídios nos custos de exploração. Desta forma, não só promove-se o “ownership” dos projetos pelas populações de modo a que estas valorizem os projetos e que os defendam, como também tendem a eliminar-se projetos cujos custos de exploração são desajustados à realidade social e económica do país em que são implementados.

 

A receita para este desafio está dada: junte-se financiamento em inovação e tecnologia com uma aposta consistente no enquadramento institucional, legal e de governança, adicione-se capacitação e evite-se a subsidiação excessiva e teremos mais tecnologias limpas e uma descarbonização sustentável da economia mundial.

 

Votos de um excelente 2016!

 

Provocação do mês: Tem Portugal um papel a desempenhar no desafio de descarbonização mundial? Como podem as nossas empresas apoiar nesta aposta os países em desenvolvimento (nomeadamente os países lusófonos)? As competências que existem em Portugal podem ser melhor coordenadas para que possamos exportar não só tecnologia mas também a nossa experiência e saber em políticas públicas?

 

Filipe Morais Vasconcelos, engenheiro mecânico pela Universidade Nova de Lisboa, Pós-graduado pela Université Paris X e MBA pela London Business School é desde 2015 Managing Partner da S317 Consulting. Foi Administrador da YAP_ON Sustainable Solutions entre (2014-2015), Diretor-Geral da Adene (2012-2014), Assessor do Secretário de Estado da Energia no XIX Governo Constitucional (2011-2012), Consultor Sénior no grupo EDP (2004–2011) e Consultor na Accenture (2001–2003). O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Filipe Vasconcelos , energia , tecnologia
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