Colunista Filipe Vasconcelos (Energia - Tecnologia): Um cacilheiro elétrico em Lisboa

20.06.2016

Os ferries são ainda uma componente muito importante na rede de transporte na Europa, sendo responsáveis por cerca de 400 milhões de viagens anualmente. Em Lisboa, entre a margem sul do Tejo e a capital, são transportadas todos os anos mais de 15 milhões de pessoas através de uma frota composta por 30 navios dos quais 19 são catamarãs, 3 ferries para passageiros e veículos e 6 cacilheiros. Ora, todos estes navios são movidos a diesel, consumindo mais de 8 milhões de euros anuais em combustível e derivados (lubrificantes), com impactos óbvios para o ambiente e para a nossa independência energética.

 

Como um grande consumidor de petróleo, o transporte marítimo oferece ainda um enorme potencial para reduzir as emissões, aumentar a eficiência energética e reduzir custos operacionais. Embora a politica de apoio à diversificação do petróleo como vetor energético no transporte marítimo não tenha tido nos últimos anos um grande desenvolvimento, aparecem agora novas oportunidades que importa considerar. Desde já, através do fuelswitching de diesel para gás natural nos navios existentes. Neste caso, o PO SEUR (o Programa Operacional do Portugal 2020 dedicado à eficiência de recursos) apoia especificamente esta transformação, pelo que não há razão para que tal não aconteça por falta de capacidade de investimento.

 

Adicionalmente, e numa ótica de médio prazo, estão também em desenvolvimento outras soluções que importaria considerar no futuro, tais como um ferry 100% elétrico. Atualmente, um consórcio de parceiros (industriais, de transportes, de consumo e de investigação) estão a desenvolver um projeto chamado E-ferry que vai desenhar e colocar em operação um protótipo de navio 100% elétrico, testando a sua viabilidade operacional em linhas marítimas na europa. Esta poderá ser assim uma ótima alternativa (mais económica e amiga do ambiente) para as atuais frotas de ferries.

 

Até 2019, o projeto de quatro anos prevê desenvolver a maior bateria marítima do mundo até à data (4,3 MW), o que permitirá que este ferry viaje cerca de 38 km ( ou seja 10 viagens entre Lisboa e Cacilhas) antes de precisar ser recarregada, tornando-o adequado para viagens entre pequenos grupos de ilhas, e ao longo das costas e vias navegáveis interiores. O projeto irá igualmente conceber um ferry que pode transportar automóveis, camiões para além de 150 passageiros.

 

Este projeto vai poder evitar anualmente emissões de até 20 000 toneladas de CO2, 41 500 kg de NOx, 1 350 kg de SO2 e 2 500 kg de partículas, que são geradas por um ferry convencional semelhante. Adicionalmente, será mais silencioso e terá um lastro menor do que ferries convencionais, reduzindo o dano ambiental potencial das viagens e melhorando a qualidade de vida dos moradores em torno de portos.

 

Segundo os líderes do projeto, nesta fase decorre ainda parte do desenvolvimento, estando previstos os primeiros os ensaios operacionais para junho de 2017, em duas rotas entre ilhas na Dinamarca. A partir dessa data e até 2019, o projeto medirá o desempenho da bateria, incluindo o tempo de carga, além de confiabilidade do ferry e os custos operacionais. Se os testes forem bem-sucedidos, este ferry poderia ser desenvolvido para a produção comercial.

 

As oportunidades estão aí, vamos aproveita-las, usando financiamento europeu aliado à competência e saber nacionais para, também em Portugal descarbonizar o transporte marítimo e poder, em Lisboa, continuar a ter cacilheiros a navegar...mas elétricos.

 

Filipe Morais Vasconcelos, engenheiro mecânico pela Universidade Nova de Lisboa, Pós-graduado pela Université Paris X e MBA pela London Business School é desde 2015 Managing Partner da S317 Consulting. Foi Administrador da YAP_ON Sustainable Solutions entre (2014-2015), Diretor-Geral da Adene (2012-2014), Assessor do Secretário de Estado da Energia no XIX Governo Constitucional (2011-2012), Consultor Sénior no grupo EDP (2004–2011) e Consultor na Accenture (2001–2003). O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Filipe Vasconcelos , energia , tecnologia , cacilheiro , elétrico , Lisboa , ferries
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