Colunista Filipe Vasconcelos (Energia - Tecnologia): Carvão limpo

03.02.2016

As centrais termoelétricas a carvão são hoje responsáveis por cerca de 41% da geração de eletricidade no Mundo. A este facto, juntam-se outros muito importantes para perceber a importância do carvão a nível mundial. Por um lado, as reservas mundiais de carvão (provadas e comercialmente acessíveis) ascendem a perto de 900 mil milhões de toneladas, o que equivale a cerca de 115 anos de consumo (e que compara com os 53 anos de reservas de petróleo). Por outro lado, estas reservas estão geograficamente mais diversificadas, ao contrário de por exemplo o petróleo, situando-se em países com menos riscos geopolíticos, o que importa numa estratégia ponderada de diversificação de fontes energia e de origens do produto para a garantia de abastecimento de um país ou região.

 

Do ponto de vista ambiental, a geração de eletricidade por combustão de carvão é uma das mais nefastas. Não só é responsável por 75% das emissões de dióxido de carbono geradas pelo setor elétrico, como também é responsável pela emissão de partículas poluentes causadoras de chuvas ácidas e de problemas de saúde para as populações.

 

A investigação e o desenvolvimento tem vindo a trabalhar na melhoria dos processos de combustão e muitos avanços têm vindo a melhorar o perfil ambiental das centrais a carvão. Com a pressão ambiental a aumentar, a tecnologia de produção para estas centrais tem evoluído significativamente com a introdução dos processos de desnitrificação ou dessulfurização, por exemplo. Mas falta ainda resolver o problema do dióxido de carbono que é libertado na sua queima. Existem soluções de sequestro e armazenamento de carbono (em inglês Carbon Capture and Sequestration – CSS) que permitem capturar 99% do dióxido de carbono gerado pela queima do carvão está a ser desenvolvida, sendo que este pode ser armazenado com segurança sob a superfície da terra onde não pode contribuir para as alterações climáticas.

 

De acordo com o Global CCS Institute, existiam no final de 2015, quinze projetos industriais de larga escala de centrais com sequestro e armazenamento de carbono, devendo entrar em produção outros sete projetos até 2017. Acontece que o problema atual das soluções de CCS existentes é que, embora eficazes, são demasiado caras e totalmente inviáveis comercialmente. Tal acontece porque este processo exige quase um terço da energia produzida por toda a central onde se pretende capturar o dióxido de carbono – o suficiente para justificar um aumento de custo de produção em cerca de 80%.

 

No Ohio, uma equipa de investigadores está a testar numa central piloto uma nova tecnologia que utiliza carvão pulverizado misturado com partículas de ferro parcialmente oxidado num reator a 1.700 graus centígrados que tem como principal vantagem, baixar a necessidade de energia que é necessária para o processo. Mesmo se este piloto for bem sucedido, serão necessários outros testes em centrais cada vez maiores, porque uma central termoelétrica de nível industrial é mais complexa de operar. No caso de a tecnologia ser bem sucedida em larga escala e provar capaz de remover todo o dióxido de carbono e poluentes do ar da queima de carvão os desafios continuam elevados. Os impactos para a saúde humana da extração do carvão são extremamente gravosos e o mesmo acontece para o meio ambiente. Mesmo o carvão limpo, produz cinzas que se acumulam em piscinas de armazenagem ou aterros, ameaçando as águas subterrâneas e os rios.

 

Como vemos, os desafios são tremendos, e não podem ser apenas reduzidos aos desafios ambientais e de saúde publica. É inegável que Portugal tem feito um caminho notável na procura da descarbonização da produção de eletricidade e com enorme sucesso, mas é igualmente importante não eliminar do cabaz energético uma tecnologia tão importante como o carvão. Neste sentido, é importante acompanhar de perto o desenvolvimento de tecnologias de CCS que permitam manter nas opções de futuro do nosso cabaz energético nacional uma componente de carvão limpo (ou seja, sem emissão de partículas nocivas e com captura e sequestro de carbono).

 

Provocação do mês: em Portugal existem duas centrais a carvão – Sines e Pêgo – que contribuem em cerca de 28% da energia que consumimos em Portugal. Estas Centrais têm hoje ainda um peso importante no cabaz energético português, mesmo com todos os investimentos que têm sido feitos em renováveis (nomeadamente a eólica, grande hídrica e solar). Com o expectável fim de vida da Central de Sines perto de 2020, como deverá Portugal olhar para a produção a carvão, tendo em conta não só os desafios ambientais mas também a segurança do nosso abastecimento e a competitividade da nossa economia.

 

Filipe Morais Vasconcelos, engenheiro mecânico pela Universidade Nova de Lisboa, Pós-graduado pela Université Paris X e MBA pela London Business School é desde 2015 Managing Partner da S317 Consulting. Foi Administrador da YAP_ON Sustainable Solutions entre (2014-2015), Diretor-Geral da Adene (2012-2014), Assessor do Secretário de Estado da Energia no XIX Governo Constitucional (2011-2012), Consultor Sénior no grupo EDP (2004–2011) e Consultor na Accenture (2001–2003). O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Filipe Vasconcelos , energia , tecnologia , carvão limpo
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