Colunista Filipe Vasconcelos (Energia-Tecnologia): 1000 MW de Lisboa a Casablanca

22.04.2016

Para quem acompanha os temas de energia, não passam despercebidas as notícias sobre o projeto de interligação elétrica de Portugal com Marrocos por um cabo submarino de 1000 MW, estando o Governo inclusive já em contacto com as autoridades marroquinas.

 

Para já, pouco de concreto se sabe ainda sobre o projeto, para além de algumas notícias, mas este é um tema muito interessante, que merece espaço para ser discutido.

 

A interligação das redes de transporte de energia são um pré-requisito para apoiar os objectivos de energia da UE e para alcançar os objetivos ambientais e políticos de um sistema elétrico de baixo carbono, para além de eliminar barreiras, quebrar monopólios regionais e baixar preços para os consumidores. A forma como as redes são projetadas e operadas deve ser consistente com estes objectivos primordiais. Isto coloca novos desafios para os operadores de redes de transporte e restantes agentes do sector, até porque importa que um sistema de transporte cumpra três grandes objetivos:

 

i)               facilite a integração das fontes de energias renováveis, parcialmente localizadas longe dos centros de consumo (por exemplo, parques eólicos offshore);

 

ii)             consiga gerir o aumento consideravelmente das interligações, num mercado único europeu de energia e

 

iii)            alcance estes objetivos com o mínimo impacto no ambiente e com o menor custo social.

 

A dificuldade de concretização tem-se devido a diferentes fatores, nomeadamente o protecionismo dos países (que têm dificultado uma maior interligação entre Espanha e França). Nesse sentido, este projeto é muito interessante, já que tudo o que nos permita diversificar fontes de abastecimento e o escoamento da nossa produção, nomeadamente a renovável é importante para Portugal.

 

A verdade é que a expansão do sistema eletroprodutor na Ibéria nos últimos 15 anos, quer em potência renovável, quer em ciclos combinados a gás natural, para níveis muito acima do razoável tem tido como impacto direto termos hoje centrais a gás quase paradas o ano todo, e energia renovável que não escoamos ou que o fazemos a preço nulo. Importa assim diversificar o potencial de escoamento de energia e nesse sentido, o norte de África é uma opção óbvia a estudar.

 

Relativamente à tecnologia que poderá ser usada, a escolha deve ser sempre baseada numa análise custo-benefício, passando por uma de duas opções: ligação em corrente alterna– tradicional - ou ligação em corrente contínua.

 

Uma comparação entre essas duas tecnologias beneficia a aplicação da corrente contínua nas seguintes situações:

 

·      Longas distâncias: para longas distâncias, o transporte de eletricidade é muitas vezes mais económico pela tecnologia em corrente contínua. Dependendo do terreno, o break-even entre tecnologias aponta para perto dos 500km de distância, a partir do qual faz sentido considerar um sistema em corrente contínua.

 

·      Restrições ambientais: o corredor de segurança necessário para as linhas de transporte de energia é consideravelmente menor para a tecnologia em corrente contínua comparado com as alternativas em corrente alterna, minimizando-se assim os impactos ambientais provocados.

 

·      Interconexão assíncrona: os sistemas de corrente alterna operando em frequências diferentes ou usando sistemas de controle de frequência independente podem ser acoplados por sistemas em corrente contínua.

 

·      Custo: Os sistemas em corrente contínua sempre foram mais caros que os em corrente alterna, porque os conversores de voltagem eram bastante mais onerosos que os transformadores de corrente alterna. No entanto, com os custos de semicondutores em queda, esta barreira de investimento tem vindo a reduzir-se.

 

·      Perdas: com perdas de energia no transporte por efeito de Joule, a rondar os 3% por cada 1000 km mais 1,5% para dois conversores de voltagem, a corrente contínua é muito mais eficiente do que o transporte convencional em corrente alterna.

 

Decerto que teremos os próximos meses animados por muitas discussões sobre este tema, já que quer do ponto de vista regulatório, quer do ponto de vista técnico, as opções são diversas. Espero sinceramente que o bom senso e os interesses dos consumidores portugueses possam ser uma prioridade os agentes envolvidos (Governo, Regulador, REN), e que este processo decorra de forma o mais aberta possível, com a ajuda dos especialistas portugueses para que possamos ter uma opção de que a não nos arrependamos no futuro.

 

Filipe Morais Vasconcelos, engenheiro mecânico pela Universidade Nova de Lisboa, Pós-graduado pela Université Paris X e MBA pela London Business School é desde 2015 Managing Partner da S317 Consulting. Foi Administrador da YAP_ON Sustainable Solutions entre (2014-2015), Diretor-Geral da Adene (2012-2014), Assessor do Secretário de Estado da Energia no XIX Governo Constitucional (2011-2012), Consultor Sénior no grupo EDP (2004–2011) e Consultor na Accenture (2001–2003). O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Filipe Vasconcelos , energia , interligações , Marrocos
Vai gostar de ver
VOLTAR