Colunista Graça Martinho (Resíduos - Tendências): As estratégias para alterações de comportamentos
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Colunista Graça Martinho (Resíduos - Tendências): As estratégias para alterações de comportamentos

O ritmo lento com que as taxas de recolha seletiva têm evoluído faz antever dificuldades no cumprimento das metas previstas no PERSU 2020. Embora estejam disponíveis vários programas de financiamento para promover o aumento da recolha seletiva e da reciclagem multimaterial, os investimentos apenas em equipamentos e tecnologia não serão por si só suficientes para promover o necessário aumento da quantidade e qualidade da participação dos cidadãos na deposição seletiva.

Alguns destes programas contemplam ações de sensibilização, comunicação e educação, mas os resultados de várias pesquisas sociais têm revelado que, por um lado, iniciativas pouco profissionais não são eficazes e apenas representam custos adicionais, por outro lado, que não há uma estratégia única ótima e universal para a alteração dos comportamentos. Para se conseguirem bons resultados é necessário normalmente uma combinação de diferentes técnicas adaptadas a contextos sociais específicos.

Face ao exposto, é fundamental que os políticos e técnicos responsáveis pela gestão dos resíduos urbanos privilegiem mais as estratégias que visem a alteração de comportamentos e que adotem nas suas decisões sobre as possíveis opções a desenvolver e implementar, critérios de eficiência e eficácia que contemplem as várias dimensões avaliativas importantes dessas estratégias. Qualquer técnica que visa a alteração de comportamentos deve incluir uma avaliação das seguintes componentes:

(1) Fiabilidade - a técnica tem capacidade para produzir os mesmos efeitos em futuras aplicações no mesmo grupo de indivíduos?;

(2) Rapidez da mudança - com que rapidez os indivíduos mudam ou melhoram o seu comportamento?;

(3) Particularismo - pode a técnica ser delineada para uma aplicação universal ou apenas para um pequeno grupo?;

(4) Generalização - a técnica encoraja a adopção de outros comportamentos ambientais?;

(5) Durabilidade - qual é o “período de vida útil” da intervenção?;

(6) Grau de satisfação dos utentes - que avaliação fazem os utentes dessa estratégia, é equitativa e socialmente justa?;

(7) Eficiência económica - qual é o custo da intervenção por cada unidade percentual de desvio de resíduo de aterro?.

Atendendo à urgência do cumprimento das metas, as técnicas mais desejadas serão aquelas que conseguirem maior rapidez e durabilidade na alteração de comportamentos e melhor eficiência económica.

A aplicação de um sistema PAYT (tarifários proporcionais à quantidade de resíduos que se produz) é uma das técnicas que permitem alcançar de forma mais eficaz estes três critérios. Contudo, já que não há esperança no imediato que se venha a implementar esta estratégia, estarão as autarquias e os SMAUT consistentes que só nos resta convocar os nossos melhores especialistas em mudança de comportamentos para nos ajudar a fazer o que a tecnologia e a engenharia por si só não conseguem?

Graça Martinho é doutorada em Engenharia do Ambiente, especialidade sistemas sociais, exerce as funções de subdiretora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e a docência de disciplinas de gestão de resíduos. É membro da Comissão de Acompanhamento para a Gestão dos Resíduos da APA, do Conselho Consultivo da ERSAR, do Conselho de Ambiente e Sustentabilidade da EDP e da Comissão Consultiva de I&D da SPV. Tem vários artigos científicos e livros publicados na temática da gestão de resíduos. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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