Colunista Graça Martinho (Resíduos-Tendências): Lixo marinho – um problema global

11.10.2016

Terminada a época balnear, ocorreu-me escrever sobre um tema reconhecido internacionalmente como uma ameaça emergente, para a vida marinha, saúde humana e economia, mas que raramente é abordado nos fóruns dos profissionais do setor dos resíduos – o lixo marinho. De acordo com a definição da UNEP (1), por lixo marinho entende-se qualquer material sólido persistente, fabricado ou processado que é descartado, eliminado ou abandonado no ambiente marinho e costeiro. É composto por resíduos dos mais diversos materiais que foram deliberadamente descartados no mar, rios ou praias ou trazidos indiretamente para o mar através dos rios, das descargas de águas residuais e pluviais ou por ação do vento.

 

Trata-se de um problema que afeta as zonas costeiras, mares e oceanos de todo o mundo, com impactes negativos preocupantes. Estimativas sobre a quantidade de resíduos existentes nos oceanos e zonas costeiras são ainda imprecisas, mas os vários estudos reportam sempre valores da ordem dos milhões de toneladas. O problema é como um iceberg, a UNEP estima que 15% do lixo marinho se encontra nas praias e zonas costeiras, 15% encontra-se a flutuar à superfície ou na coluna de água e cerca de 70% encontra-se no fundo dos oceanos, fora da nossa vista.

 

Dos vários materiais presentes nas zonas costeiras e oceanos, os resíduos de plástico são os predominantes, estimando-se que representem entre 60% a 95%, inteiros ou fragmentados (e.g. argolas de six-packs, sacos de plástico, garrafas, garrafões, embalagens para alimentos, boias, redes e fios de pesca, palhinhas, isqueiros, baldes, canetas, brinquedos, giletes, cotonetes, cabos, cordas, filtros de cigarros, balões). Investigadores estimam que a quantidade de plástico nos nossos oceanos possa vir a alcançar cerca de 155 milhões de toneladas em 2025. Num estudo liderado pela Universidade dos Açores, no âmbito do projeto HERMIONE(2), dos 32 locais analisados (Oceano Atlântico, Oceano Ártico e Mar Mediterrâneo), o Canhão de Lisboa foi o que apresentou maior densidade de lixo marinho, foram encontrados cerca de 66 itens de resíduos por hectare, dos quais 86,2% de plástico.

 

O assunto adquiriu maior visibilidade mediática a partir de 1997, ano em que o pesquisador Charles Moore relatou a existência de uma grande “ilha de lixo” no giro do Pacífico Norte, com uma extensão equivalente a 8 vezes a área de Portugal. Os giros oceânicos são zonas de convergência de correntes oceânicas que pelo efeito da força de Coriolis criam grandes sistemas de correntes rotativas, para onde arrastados os resíduos de plástico. Num estudo realizado em 2004, pela organização Algalita(3), amostras de água marinha continham 6 vezes mais plástico do que plâncton. Idênticas “lixeiras marinhas” foram identificadas nos outros quatro grandes giros mundiais (Atlântico Norte, Atlântico Sul, Oceano Índico e Pacífico Sul).

 

Cerca de 80% do lixo marinho provém de fontes terrestres (e.g. lixeiras, aterros, rios, emissários submarinos, descargas de águas pluviais, efluentes industriais e urbanos, resíduos abandonados nas praias e zonas costeiras, descargas em locais impróprios) e os restantes de atividades do mar (e.g. industria da pesca, transporte marítimo, mineração e extração offshore, descargas ilegais no mar, abandonado ou perda de artes de pesca).

 

A UNEP estima que o lixo marinho cause a morte de cerca de 1 milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos todos os anos, por emaranhamento, asfixia ou ingestão. Fragmentos de plásticos e objetos de plástico têm sido encontrados com grande frequência nos estômagos de várias espécies marinhas (aves, peixes, tartarugas).

 

A comunidade científica tem dado particular atenção aos microplásticos, partículas de plástico de dimensão inferior a 5 mm, que integram, por exemplo, grânulos de resina virgem usados como matéria-prima pelas indústrias do plástico, microplásticos usados pela indústria dos cosméticos (e.g. exfoliantes, pastas dentífricas) ou resultantes da degradação de fragmentos maiores. Estes micoplásticos representam um risco acrescido para os ecossistemas marinhos, por um lado, devido à sua fácil dispersão podem ser vetores de introdução de espécies exóticas, por outro lado, podem adsorver na sua superfície tóxicos, por exemplo, poluentes orgânicos persistentes (POP). Os organismos marinhos ingerem estas partículas, que confundem com alimento, acumulando estes poluentes orgânicos, afetando todos os organismos que se seguem na cadeia alimentar, incluindo os seres humanos.

 

A nível internacional e comunitário vários têm sido as iniciativas que visam, por um lado, estabelecer compromissos intergovernamentais e políticas para a prevenção e resolução do problema do lixo marinho (e.g. a Estratégia de Honolulu (4), a Declaração de Manila(5), a Parceria Global para o Lixo Marinho (6), a Diretiva-Quadro Estratégia Marinha(7)), por outro lado, promover ações de limpeza das zonas costeiras (e.g. a Ocean Conservancy(8), que desde há 25 anos promove a campanha mundial de limpeza de praia, e a Coastwatch Europe(9), o programa de monitorização e limpeza de praia mais antigo em execução em Portugal).

 

Em Portugal desde há vários anos que organizações, autarquias e grupos de cidadãos se empenham voluntariamente em campanhas de limpeza das praias. Equipas de várias universidades (Açores, Aveiro, FCT-UNL) têm vindo a desenvolver trabalho científico sobre o lixo marinho. São exemplo, os projetos POIZON (10)e MARLISCO (11), desenvolvidos pela equipa da Prof.ª Doutora Paula Sobral, do centro de investigação MARE (12) da FCT-UNL, que incluem a caracterização do lixo marinho na costa portuguesa, a degradação de polímeros nos oceanos e a ingestão de partículas por organismos marinhos, bem como a realização de eventos de sensibilização da sociedade e educação ambiental e parcerias com diferentes sectores da sociedade.

 

A Prof.ª Doutora Paula Sobral foi também a fundadora da Associação Portuguesa do Lixo Marinho (13), criada em 2013, que visa a preservação do ambiente face aos impactes do lixo marinho, através da participação e divulgação de estudos, formação e sensibilização da sociedade para esta problemática. Recentemente a APLM, com o apoio da UNEP, promoveu a 1ª Conferência Portuguesa sobre Lixo Marinho, realizada em Lisboa nos dias 15 a 17 de setembro. Nesta conferência foram apresentados vários trabalhos de investigação que têm vindo a ser desenvolvidos em Portugal, com destaque para os microplásticos, e foi ainda formalizada a Parceria Portuguesa para o Lixo Marinho (14) através da assinatura de uma carta de compromisso por indivíduos e entidades de diferentes setores da sociedade empenhados na redução do lixo marinho em Portugal.

 

Outra iniciativa nacional que merece destaque é o projeto “A pesca por um mar sem lixo”(15), concebido e lançado em 2015 pela Docapesca. Reconhecendo o papel do setor da pesca para a resolução deste problema que afeta a sua própria atividade, o projeto visa melhorar a gestão de resíduos a bordo das embarcações de pesca e nos portos de pesca e sensibilizar os pescadores para a recolha seletiva dos resíduos gerados a bordo e capturados nas artes de pesca.

 

Existem já duas aplicações para telemóveis que permitem a participação dos cidadãos nesta problemática. Uma, desenvolvida por duas associações holandesas como parte da sua campanha "Beat the Microbead" (16), tem por objetivo ajudar os consumidores a identificar os produtos que incorporam microplásticos na sua composição, podendo deste modo evitar o seu consumo. A outra, o Marine LitterWatch (17), criada pela Agência Europeia do Ambiente, permite que "cientistas cidadãos" possam registrar e reportar a quantidade de lixo que encontram na praia, informação que ajudará a fornecer dados para apoiar uma melhor implementação das políticas.

 

Os compromissos internacionais, a implementação de boas práticas industriais, a melhoria dos sistemas de gestão de resíduos, as campanhas de limpeza em terra e no mar, são importantes para reduzir e prevenir o lixo marinho, mas não são suficientes se os cidadãos continuarem a ter certos comportamentos negligentes. É fundamental responsabilizar os cidadãos pelos resíduos que geram e pelo local que escolhem para a sua eliminação. Coisas tão simples como evitar produtos com microesferas, não deitar beatas para as ruas e praias, não deitar cotonetes para a sanita, não abandonar os sacos e embalagens de plástico, já são um grande contributo, pois estes são os resíduos mais encontrados nas nossas praias.

 

Graça Martinho é doutorada em Engenharia do Ambiente, especialidade sistemas sociais, exerce as funções de subdiretora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e a docência de disciplinas de gestão de resíduos. É membro da Comissão de Acompanhamento para a Gestão dos Resíduos da APA, do Conselho Consultivo da ERSAR, do Conselho de Ambiente e Sustentabilidade da EDP e da Comissão Consultiva de I&D da SPV. Tem vários artigos científicos e livros publicados na temática da gestão de resíduos. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

 

Referências:

 

(1) United Nations Environment Programme /About Marine Litter: http://www.unep.org/regionalseas/marinelitter/about/default.asp

(2) Gideon, M. et al. (2011). Litter in submarine canyons off the west coast of Portugal. Deep-Sea Research II 58 (2011) 2489–2496

(3) Algalita Marine Research and Education: http://www.algalita.org/

(4) Estratégia de Honolulu: http://www.unep.org/gpa/documents/publications/honolulustrategy.pdf

(5) Declaração de Manila: http://www.unep.org/ecosystemmanagement/water/regionalseas40/Portals/50221/Manila%20Declaration_GPA.pdf

(6) Parceria Global para o Lixo Marinho: http://www.unep.org/gpa/gpml/gpml.asp

(7) Agência Portuguesa do Ambiente / Lixo Marinho (http://www.apambiente.pt/index.php?ref=17&subref=1249&sub2ref=1319)

(8) Ocean Conservancy/International Coastal Cleanup: http://www.oceanconservancy.org/our-work/international-coastal-cleanup/

(9) Coastwatch Europe: http://coastwatch.org/europe/

(10) Projeto POIZON: http://www.poizonproject.org/

(11) Projeto MARLISCO: http://www.marlisco.eu/

(12) MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente: http://www.mare-centre.pt/

(13) APLM: http://www.aplixomarinho.org/

(14) Sobral, P. et al. (2015). Lixo Marinho: um problema sem fronteiras. Parceria Portuguesa para o Lixo Marinho. APLM (http://media.wix.com/ugd/3dddd3_e334118d548f4a3c9a7470fad4315ec8.pdf)(15) Pesca por um mar sem lixo: http://www.docapesca.pt/pt/comunicacao/noticias/item/mar-sem-lixo.html

(16) Aplicativo Beat the Microbead (http://get.beatthemicrobead.org/pt/)

(17) Aplicativo Marine LitterWatch (https://play.google.com/store/apps/details?id=com.litterwatch&hl=pt_PT)

TAGS: Opinião , Graça Martinho , resíduos , tendências , lixo marinho
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