Colunista Henrique Gomes (Energia-Tendências): Eólica e Solar PV. A chegada à idade adulta.

09.05.2017

Investimento anual

 

O investimento mundial em energias renováveis, electricidade ​​e biocombustíveis, atingiu em 2015 o valor de 285,9 mil milhões US$. Este valor representa um aumento de 5% em relação a 2014, bate o recorde anterior alcançado em 2011 e é mais do que o dobro dos 130 mil milhões US$ alocados à produção de electricidade a partir do carvão e do gás natural.

 

Pela primeira vez, o investimento total em energia renovável pelos países em desenvolvimento e emergentes excedeu o dos países desenvolvidos. O mundo em desenvolvimento, incluindo a China, Índia e Brasil, comprometeu um total de 156 mil milhões US$ (aumento de 19% em relação a 2014) tendo a China desempenhado um papel dominante, ao aumentar o seu investimento em 17%, para 102,9 mil milhões US$, representando 36% do total global. O investimento também aumentou significativamente na Índia, África do Sul, México e Chile e noutros países.

 

Em contrapartida, o investimento em energias renováveis ​​nos países desenvolvidos caiu 8% em 2015, para 130 mil milhões US$. O grande abrandamento foi observado na Europa (queda de 21% para 48,8 Mil milhões US$), apesar do aumento relativo da eólica off-shore (17 mil milhões US$, 11% acima de 2014). Nos Estados Unidos, o investimento em energias renováveis ​​(com a maior expressão no solar) aumentou 19%, para 44,1 mil milhões US$, o maior aumento desde 2011.

 

O investimento em energias renováveis ​​tem vindo a ser cada vez mais dominado pelas eólica e solar. A energia solar foi novamente líder em 2015, com 161 mil milhões de US$ (12% acima de 2014), representando mais de 56% do total de novos investimentos em energia. Segue-se a energia eólica com 109,6 mil milhões US$, ou 38,3% do total (+ 4%). Todas as outras tecnologias baixaram o investimento em relação a 2014.

 

A eólica e a renovável na Europa

 

No início de 2016, havia 433 GW de geradores eólicos instalados (on-shore) em todo o mundo. A nível de países, os cinco primeiros eram a China (145 GW), os EUA (74 GW), a Alemanha (45 GW), a India (25 GW) e a Espanha (23 GW).

 

No final de 2016, após uma entrada anual em exploração de mais 12,5 MW, a EU-28 atingiu uma potência instalada de 153,7 MW (on e off-shore). Se estendermos este valor a toda a Europa (incluindo, nomeadamente, a Turquia, Noruega, Rússia e Ucrânia) esse valor sobe ligeiramente 7,6 MW. Na EU-28, o conjunto da Alemanha (50 GW) e Espanha (23,1 GW) representa 48% daquele valor. A GB, França e Itália seguem aqueles 2 países com 14,5 GW, 12,1 GW e 9,3 GW. Suécia, Dinamarca, Polónia e Portugal fecham o grupo com mais de 5 GW instalados.

 

Por ordem decrescente de importância, 67% da potência que foi instalada na Europa nos últimos 2 anos concentrou-se em 4 mercados: Alemanha (43%), França (10%), Polónia (7,5%) e GB (6,5%). Nesse período Portugal aumentou em 400MW (1,5%) o seu parque eólico, correspondendo o investimento de 2016 a um ratio “potência entrada em serviço/consumo de electricidade” de 4,8%, o 7º mais elevado na EU-28. Actualmente com 5,3 GW, Portugal tem o 8º maior parque eólico da EU-28.

 

Das tecnologias para a produção de electricidade instaladas em 2016 na Europa, a eólica representou 51% da potência instalada e o solar 27% tendo o conjunto das renováveis alcançado o valor de 86%. Há 9 anos consecutivos que o contributo das renováveis no incremento anual de capacidade de produção de electricidade é superior a 55%.

 

O parque electro-produtor europeu tem actualmente a sua potência distribuída da seguinte forma: Gás Natural (20,3%), Eólica (16,7%), Carvão (16,5%), Grande Hídrica (14,8%), Nuclear (13,1%), Solar PV (11,0%) e Outros (7,6%).

 

Em termos do contributo da eólica na produção de energia eléctrica em cada país da EU-28 em 2015, Portugal apresenta o 3º lugar (24,7%), logo após a Dinamarca (36,8%) e a Irlanda (27,0%); para o conjunto da Europa esse valor foi de 10,4%. Se avaliarmos a contribuição das renováveis no seu conjunto e também para esse ano, Portugal passa para 4º lugar (45%) atrás da Suécia (72%), Áustria (63%) e Dinamarca (50%).

 

De salientar que, embora em termos médios os valores estatísticos europeus sejam bons, em termos individuais as situações são muito díspares, havendo países que praticamente pararam os investimentos nos últimos anos pois, entretanto, sobrecarregaram insuportavelmente os seus sistemas energéticos com elevados sobrecustos. São os países com taxas de penetração ainda modestas, nomeadamente os países em desenvolvimento, que estão a beneficiar das renováveis a preços interessantes e competitivos.

 

Custos e apoios das renováveis

 

“Os esquemas de apoio às fontes de energia renovável têm sido um instrumento chave para ajudar a alcançar os objectivos nacionais e europeus das mesmas”. Afectando directa ou indirectamente os consumidores, é imperioso que a regulação garanta que aqueles objectivos sejam alcançados com a melhor relação custo-eficiência.

 

Todas as questões relevantes, tais como metas, o tipo de suporte e os procedimentos para definir níveis de apoio, acesso à rede, níveis de compensação em caso de corte de produção, ordem de mérito e a capacitação do auto-consumo pelos consumidores vão estar no centro do debate político nos próximos anos.

 

Um relatório muito recente do CEER, fez a revisão dos esquemas de apoio às renováveis na Europa e apresenta as seguintes conclusões genérica relativas a 2014 e 2015:

  • Uma vasta gama de instrumentos é utilizada para promover as Fontes de Energia Renovável (FER), tais como subsídios ao investimento, FIT, FIP e GCs.
  • Em toda a Europa, os regimes de apoio estão a ser adaptados. Mais integração do mercado das FER. Introdução das FIP (os produtores recebem um apoio definido para além dos seus rendimentos no mercado). Introdução de procedimentos de concurso, como forma de determinar os níveis de apoio.
  • Analisando os níveis de apoio às principais tecnologias renováveis verifica-se existirem grandes diferenças entre países. Para 2015, o apoio médio ponderado variou de um mínimo de 16,20 €/MWh (na Noruega) para 183,82 €/MWh (na República Checa), com uma média ponderada 26 países de 110,22 €/MWh. Esta percentagem é praticamente inalterada em relação ao custo médio 2014.
  • A proporção da electricidade produzida que recebe apoio às FER difere amplamente entre países, desde 1% na Noruega a 62% na Dinamarca, com uma média de 16% em 2014.
  • Quase nenhumas alterações foram feitas em relação a aspectos centrais como a natureza do financiamento (na maior parte as taxas não são fiscais) ou aspectos de ligação e acesso à rede (as FER beneficiam da ordem de mérito)
  • Em termos de integração do mercado, os parques de FER têm cada vez mais a mesma responsabilidade financeira que as fontes convencionais para assegurar o equilíbrio do sistema eléctrico, normalmente acima de um certo limiar de capacidade instalado. As medidas de auto-consumo e limitação da produção no caso de congestionamento na rede, são aplicadas e cada vez mais importante em muitos países.

 

O desenvolvimento dos parques tem sido acompanhado de contínuas reduções de custos tendo, entre 2008 e 2015, o custo médio da eólica on-shore baixou 35% e o do solar PV quase 80%.

Para publicação em 2017, os resultados preliminares de um projecto liderado pela IRENA, que analisou investimentos, relativos ao período de 1983 e 2014, espalhados por 12 países e que representam mais de 87% da capacidade instalada global de energia eólica terrestre, mostram taxas de aprendizagem de 7% para os custos de investimento e de 12% para o LCOE, destacando-se melhorias significativas na tecnologia eólica no período.

 

Actualmente há anúncios de preços de longo prazo, em mercados tão diversos como a América do Norte, América Latina, Médio Oriente e Norte da África que se situam entre 30 US$/MWh e de 50 US$/MWh quer para a eólica on-shore quer para as instalações solares (PV).

 

Além disso, os resultados recentes dos concursos na Europa para projetos eólicos indicam possíveis reduções de custo de 40% a 50% para os novos projectos até 2021. Recentemente, resultado dos leilões em vários países em desenvolvimento, os preços caíram com uma convergência em torno de 40 US$/MWh em 2016, mas com valores abaixo desse nível em Marrocos, Peru e México. Impulsionado pela grande concorrência, a crescente confiança dos investidores e o desenvolvimento das indústrias locais, os resultados dos leilões mostram uma queda média dos preços de 45% entre os dois últimos leilões no Chile (10 meses de intervalo), 33% no México (6 meses de intervalo) e 10% na Argentina (2 meses de intervalo)

 

Apesar dos preços destes contratos não poderem ser comparados directamente com os custos médios de geração, ainda assim eles sinalizam uma clara aceleração da redução de custos, o aumento da sua acessibilidade económica e da atractividade das energias renováveis entre políticos e investidores.

 

A implantação das renováveis intermitentes, eólica e solar PV, está a evoluir de uma fase em que as principais prioridades eram a aprendizagem tecnológica e a redução de custos para uma nova geração em que se apresentam já tecnologicamente maduras e economicamente acessíveis.

 

A maturidade tecnológica e os custos mais baixos tornam as energias eólica e solar cada vez mais atraentes para a diversificação da oferta, da redução da poluição local e da descarbonização da economia. A sua contribuição para os sistemas de energia em todo o mundo, quer nos países desenvolvidos quer nos em desenvolvimento, está a evoluir de marginal para o mainstream.

 

A eólica e a solar PV já chegaram à paridade de rede em muitos sistemas e lugares do mundo.

 

As renováveis estão a emancipar-se!

 

Portugal é um país de referência nas renováveis. Será tema para um dos próximos artigos.


Henrique Gomes é Licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST-UTL e MBA pela FE-UNL. Foi administrador da GDP – Gás de Portugal e da REN – Redes Energéticas Nacionais e também SEE do XIX Governo Constitucional (até 13Mar12). Actualmente, não tem remuneração nem participações sociais em nenhuma empresa ou associação ligada à energia.

TAGS: Opinião , Henrique Gomes , energia , tendências , eólica , solar fotovoltaico
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